O Salão dos Bardos.

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O Salão dos Bardos.

Mensagem por Deus de Muitas Faces em Sab Maio 13, 2017 4:28 am


Salão dos Bardos

Aqui se instalam os bardos à serviço da Casa Tyrell. São sempre sete, os mais habilidosos dentre as competições realizadas nos muitos torneios de Jardim de Cima. O melhor cantor, o melhor harpista, o melhor flautista, o melhor poeta, o melhor compositor, o melhor alaudista e o melhor gaitista. Após vencerem a competição anual, ganham um ano servindo aos Tyrell e morando no castelo, com a única tarefa de produzir canções e entreter seus senhores. Caso sejam expulsos, aquele que ficou em segundo lugar no último ano será convocado. Todos devem competir novamente no Torneio de Bardos, para reafirmarem sua supremacia. Muitos bardos famosos ganharam fama e riqueza em Jardim de Cima. Dividindo a mesma Sala Comunal, os Sete Bardos das Rosas possuem dormitórios individuais, mas não é incomum que criem canções em conjunto, cada um utilizando sua especialidade.

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Re: O Salão dos Bardos.

Mensagem por Desmera Tyrell em Sex Maio 19, 2017 1:16 am

"Oh yeah... All Lannisters are lions and all Starks are wolfs... And when the Tyrell farts its smells like a rose..."
 

      O salão cheirava a fumo e vinho. Uma fumaça densa, porém familiar ascendia dos cachimbos acesos, enquanto as figuras magras e abatidas curvaram-se sobre uma mesa de mogno, esculpida com simplicidade e elegância. A ala dos bardos não era exatamente luxuosa, mas era o melhor que um homem de nascimento baixo poderia esperar, em toda a perspectiva de vida da qual fora projetado. A Casa Tyrell era famosa por seu prestígio como patrona de grandes talentos, tradição que só solidificou-se após a Guerra da Aurora, quando nossos cantores proclamaram os heróis na derrotas dos monstros para Além da Muralha. É claro que as criaturas estavam extintas agora, bem como a maioria dos dragões. A gigantesca fera negra fizera o dia virar noite sobre a Campina, diziam os Meistres. O feroz Drogon partira na noite em que a Rainha Dragão morreu, para nunca mais ser visto. Se ainda existisse, seria ainda maior, e provavelmente tão magnífico como Baleiron Chama Viva. Mas quem tomaria para si tal criatura, com tamanho poder? Não. Certamente a fera negra partira para morrer em Sothoryos, o continente das bestas. Era de conhecimento comum que nada retornava vivo para além da Costa daquele lugar assombrado. A história contada à respeito das maravilhas obscenas contidas nos limites do mundo, ainda causava-me arrepios. Eu não era uma jovem donzela há muito. Poucas coisas tinham o poder de me assustar. Os horrores e monstruosidades narrados pelos livros da Biblioteca dos Mistérios, em Torralta, nunca deixaram minha mente.

- Suponho que os inúteis tenham encerrado a canção. Dentro de dois dias encerramos o prazo para apresentar as obras a serem cantadas no festival de colheita das maçãs. Não esperem que eu apresente um espetáculo horrendo aos Fossoway das Maçãs Verde e Vermelha. Já é ruim o bastante quando vocês me envergonham periodicamente com sua inépcia oratória. Ao menos sejam eficientes em bajular meus vassalos. - Disparei, fazendo com que cada um dos sete artistas erguesse o corpo com espanto e surpresa.

- M’lady! Não a esperávamos! - O despenteado flautista tentou colocar seus fios de cabelo desgarrados de volta no lugar, as bochechas vermelhas de cidra. Que oportuno, não havia bebida melhor para acompanhar um fracasso em produzir poesia sobre maçãs. - A que devemos a honra?

- É evidente que não me esperavam, a julgar pelo estado em que se apresentam agora. Não permitiram que as servas limpassem o salão outra vez? - Provoquei, ignorando que me dirigia aos teoricamente melhores de minha região. - Acreditem, a reclusão não fará com que a Donzela venha ela mesma compor para vocês, seus tolos. Esta imundície é um ultraje para minha Casa. Ao menos pensaram no óbvio? Todo ano os menestréis de outras Casas cantam sobre Garth Mão-Verde, e as semelhanças entre ele e Lord Fossoway da Maçã Vermelha. Ou sobre a bravura das terras férteis que não esmorecem nem no inverno. Façam o mesmo que eles quando enfatizam que toda a Campina é uma única família, ou outra bobagem do tipo. Mas façam algo. Não deve ser difícil agradar aos Fossoway, vermelhos ou verdes. O que realizaram, afinal? Produziram a maior maçã do Mundo Conhecido? Há! Uma pena que o torneio dos bardos não se trate de um festival de troça. Eu ganharia a todos, então, e não precisaríamos gastar ouro com vocês.

- Vossa senhoria tem mesmo um senso de humor único, Lady Desmera.  - Elogiou-me Illyrion, sabendo que eu gostava de ser bajulada por jovens belos. O lyseno tinha cabelos loiros como um Lannister, mas olhos amarelos que denunciavam sua descendência exótica, das Terras das Sombras. Sua voz era melodiosa, mas triste como a morte de um bebê. Ele fizera toda Jardim de Cima chorar, cantando o Julgamento Verde, um episódio que os Tyrell prefeririam esquecer. A sua voz era a razão para eu ter mantido sua cabeça. Uma pena que não era tão genial quanto belo, e compor não era bem o seu dom.- Mas é justamente a ausência de material que torna a tarefa difícil. Como bajular os Fossoway sem que isto fique evidente? Como falar sobre a colheita, sem falar unicamente sobre as maçãs?

- Como alimentar um bardo, se ele revela-se um inútil? Não sou eu quem devo responder estas perguntas, menino bonito. Por acaso há um cérebro além de cachos, em sua cabeça? Você. - Apontei para o único deles que continuava dormindo, a cabeça careca grudada à mesa de madeira e afundada em pergaminhos. Um tinteiro e penas verdes estavam espalhados ao seu redor. Com olheiras profundas e um ar doente, Elio Sand de Dorne fitou-me com um ar cansado que parecia sugar a vida de meus pulmões. Enojada, dei um passo para trás enquanto sacudia nervosamente meu leque bordado a ouro, para dissipar o miasma fétido que se desprendia dele.

- Eu compus três canções sobre Garth Mão Verde, e outras duas sobre a amizade dos Fossoway com os Tyrell. Se lhe aprouver, posso pedir a ajuda de meus companheiros para cantá-la, senhora. Creio que após a última noite em claro, não serei de grande valia. - Assenti, entediada. Ele entregou um pergaminho à Illyrion, e outro ao tocador de harpa. Este, parecia pouco bêbado, porém mais cansado que todos os outros.

  Quando a voz de Illyrion ergueu-se, eu quase pude sentir a tristeza invadir meus pensamentos. A canção falava sobre uma velha vila, com um Lord desesperançoso diante do inverno, ao ver seu povo passando fome. Eles eram forasteiros numa terra selvagem e hostil, e nada parecia acolhê-los. A própria natureza os desprezava, com árvores perturbadoras a encará-los com seus olhos acusadores. Eles a derrubavam, mas pequenos demônios vinham da floresta, e com magia e maldade, ameaçavam impedir que encontrassem um lugar para viver. Eram os filhos da Floresta, resistindo à Invasão dos Primeiros Homens. Sorri, surpresa. Estava emocionada, e sentei-me lentamente junto da mesa longa, em que pedaços de frutas e pães meio comidos ainda se espalharam, numa disforme e caricata bagunça. Apoiei uma das mãos sobre o braço da cadeira, enquanto meu vestido encolheu-se ao meu redor. Nem mesmo o tecido grosso da seda pareceu afastar a sensação de desalento e insegurança, que parecia decretar o fim de um povo, no fim da primeira parte da canção. Era Inverno na Campina, e a morte parecia ter chegado.

     Comovida, fiz sinal com uma das mãos para que continuassem, e eles seguiram em frente. Agora o alaúde unindo-se à sinfonia delicada e fúnebre, que crescia ao anunciar a vinda de um homem diferente de todos os outros. Ele era único, um homem com o sangue dos filhos da floresta, fruto de uma união proibida. Como tal, ele possuía um poder que nenhuma das crianças da floresta possuíam, nem seus companheiros. Era abençoado pelos Deuses Antigos, e fazia nascer campos e árvores. Era capaz de pôr um bebê na barriga de qualquer mulher com que se deitasse, mais de um até. Mesmo com as estéreis. Era belo, alegre, e brilhava como a vida. Em troca de uma noite com o senhor tristonho, abençoou para sempre o território Fossoway com as mais belas maçãs que o mundo já vira, e jamais veria. Sorri ao fim da narrativa, batendo palmas. Não era sempre que eu podia ser impressionada. Apesar das incoerências históricas, aquilo agradaria aos Fossoway. Eles certamente ignoravam que Garth jamais conviveu com um Lord de nome Fossoway, principalmente porque o nome surgiria milênios depois do Herói. Mas aquilo não importava. Eu não precisaria ouvir nenhuma outra canção. Meus pássaros cantariam aquela.

- É uma boa canção, Elio. Se ela for bem recebida, você receberá uma recompensa. Se o cheiro deste lugar e dos senhores de modo geral, não me enojassem neste momento, os convidaria para o chá da tarde no salão de banquetes. Mas não suportaria tal afronta ao apetite. Lavem-se o quanto antes, e deixem as servas trabalharem em paz. Se meus guardas disserem que este lugar voltou a se parecer com uma ratoeira gigante, vocês cantarão odes aos deuses pessoalmente. - Sem dizer mais nada, levantei-me, afastando dos artistas e da grande mesa que estendia-se ao lado da lareira.

    Meus guardas puxavam o pórtico para permitir a minha passagem. Batendo com estrondo atrás de mim, a penumbra súbita provocada pelo portal ocultou o sorriso satisfeito que iluminou-se em meu rosto. Tudo estaria perfeito para receber os vassalos de meu filho, e eu tivera a sensação extracorpórea de relembrar um passado longínquo, no qual eu não estivera envolvida. Para uma mulher em minha idade, raras e preciosas eram as ocasiões em que se podia sentir jovem e despreocupada. E, embora eu jamais dissesse algo semelhante em voz alta, era grata ao talento daqueles pobres poetas, os quais deviam orar fervorosamente por minha morte, desde que venceram o último torneio dos bardos.


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