Pátio de Treino.

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Pátio de Treino.

Mensagem por Deus de Muitas Faces em Qui Maio 18, 2017 11:33 am



Pátio de Treino

O Pátio de Treinamento é o local onde os soldados Hightower treinam em combato, montaria e arco e flecha. Ocupa grande parte da região aberta entre as muralhas e Torralta, com campos para justas e treinamento com a lança. De sua câmara, o Lord pode observar do alto este local, de modo que os soldados sempre tentam dar o máximo de si para impressioná-lo.

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Re: Pátio de Treino.

Mensagem por Avalon Hightower em Qua Jun 21, 2017 4:34 am

"Knowledge is the light in the dark..."
 
         
A chuva que caía era como um manto cálido, escorrendo pelo corpo quente e tornando o chão do pátio de treinamentos um aglomerados de pequenas poças. Milhares delas, que se espalharam e explodiram em uníssono, numa sinfonia líquida cortada apenas pelos movimentos duros e precisos do Lord. Agindo em total abandono, Avalon respirava no ritmo da chuva. Bebia e sentia sua força queda, que o oprimia enquanto o levava, impulsionando seus movimentos e sua respiração. Naquele ambiente, com a camisa de flanelas simples e as calças de couro, era apenas o rapazote que navegara para as Cidades Livres ao lado de Dickon Greyjoy, quando ambos sequer sabiam o que era realmente navegar. Com quinze anos, e apenas um ano antes de ser pai pela primeira vez, não era mais que uma criança. Os nós desatados de sua camisa caíam de seu corpo, balançando enquanto ele girava e bloqueava golpes invisíveis. O machado de lâmina dupla reluzia sobre a água cristalina, e o cheiro do mar enchia o céu nublado. Trovões ribombavam, enquanto os homens de Torralta reuniam-se para observar o seu senhor, sozinho sob a tormenta. Era naqueles instantes de total intempérie e solidão que Avalon sentia-se mais livre. Era quando podia lembrar-se de Tyene e de Garlan, seus dois amores. Era quando podia sofrer e não definhar. Mas crescer e destruir. Com um gesto desajeitado, urrou enquanto arremessava seu machado na direção de um dos alvos. A arma girou circunspecta, bem longe da graça dos dançarinos das Ilhas de Ferro. Foi tirar uma lasca de um dos bonecos de estopa, caindo há metros de distância. Com um grito, moveu seus ombros e pediu por outra arma. Um dos guardas adiantou-se e jogou um outro exemplar para seu Lorde.

Avalon segurou a arma pelo cabo, que fora arremessada por seu guarda. Os cabelos molhados presos num rabo de cavalo já pingavam, e seu peito arfante não saberia dizer se era a chuva ou o suor que lhe banhava. Contendo-se, moveu o machado com a mão direita, convidando seu homem em completa armadura para treinar. Ele hesitou, mas um outro adiantou-se, este em armaduras leves de fibra de couro curtido e peles. Circundando Avalon, puxou sua espada boa forjada em castelo. Ele fez menção de avançar, mas Avalon sorriu, cobrindo seu flanco com a arma grossa. Girou o machado em suas mãos, fazendo as lâminas dançarem, e caiu sobre seu homem. Deslizou sobre a lama, sentindo todo seu peso acumular-se numa única perna enquanto escorregava para baixo. Com a outra, mirou um chute na coxa do guarda, que arfou e não suportou, ajoelhando-se sobre uma de suas pernas. Erguendo a mão do machado, Avalon parou a arma a centímetros do peito do seu homem. Quando achou que o treino teria um fim, o guarda enfiou-lhe o punho na face esquerda, derrubando-o de costas sobre o chão molhado. Caiu com os braços abertos, largando seu machado. Girou com velocidade para longe do adversário, antes que a espada dele fosse lançada em sua direção. Os homens Hightower gritavam e estimulavam a disputa. O calor da emoção fazia com que Avalon sentisse cada vez menos as dores e urgências de seu corpo. Era quase como estar numa verdadeira batalha, embora nunca tivesse pisado numa guerra, já tivera sua cota de mortes na juventude. Em especial em Lys, naquela ocasião com os traficantes de escravos do prazer…

Sua distração quase custou-lhe uma das mãos, quando não conseguiu pegar o terceiro machado que lhe fora lançado. Estalou a língua logo antes de ser atingido por um chute nas costelas, que tirou-lhe o ar e levou-o ao chão. No afã de cair, Avalon acabou mordendo a língua, e o gosto metálico encheu-lhe a boca. Cuspiu o vermelho sobre o marrom da lama, mas gostou de ver que aquilo não impediu seu guarda. Espanando água e lama, abriu caminho entre a sarjeta para apanhar seu machado, aparando um golpe de espada que fez vibrar os ossos de seu braço inteiro. O impacto certamente abriria hematomas em sua mão nua e gélida, que segurava o aço frio, trêmula. Lutou com a gravidade para não largar o machado, mandando um segundo golpe que atingiu o ombro de seu guarda com a lateral da arma, e não as lâminas. O guarda arfou e Avalon viu a oportunidade perfeita para chutá-lo na barriga. Infelizmente, o golpe reuniu todas as forças que ele possuía, mandando-o para o chão bem ao lado de seu oponente. Sem fôlego, lutou para tragar o ar enquanto o guarda fazia o mesmo. Olhando para o rosto ferido do homem, largou sua arma e começou a rir. Concedia-lhe a vitória, afinal, o homem certamente teria o derrotado se aquela fosse uma batalha verdadeira. Suas forças acabavam ali, enquanto o outro parecia bem para uma nova investida.

- Foi uma boa luta, m’lorde! - Elogiou o rapaz, os cabelos ruivos quase tão escuros de lama quanto os fios claros de Avalon. Os dois riram, e o Lorde de Vilavelha esfregou a água da chuva no rosto, para lavar as impurezas. Os homens afugentados nas ameias do pátio riam e trocavam moedas segundo suas apostas.

- Eu é quem devo agradecer-lhe, meu amigo! Como devo chamá-lo? - Pediu, impressionado com a beleza do guarda quando ele retirou o capacete.

- Asher Rivers do Ramo Vermelho do Tridente, m’lorde. Se lhe agradar. - Avalon queria dizer que o agradava e muito, mas limitou-se a sorrir e acenar. Não era mais uma criança, e devia saber dominar seus impulsos. Aceitou o braço de Asher, quando este se levantou primeiro, e foi içado para cima. Andando com as pernas doloridas, fez esforço para não demonstrar seu desgaste.

- Asher, avise ao Mestre de Armas que a partir de hoje você fará parte da minha guarda pessoal. Qualquer homem corajoso o bastante para fazer seu Lord sangrar deve ser um guerreiro valoroso. - Asher apenas concordou, evidentemente surpreso e feliz. O deixou para trás sendo parabenizado por seus colegas, enquanto ia caminhando até a entrada frontal de Torralta.

Foi quando viu um dos Meistres da Cidadela, às voltas com um pergaminho em mãos e gesticulando às portas da fortaleza, insistindo com os guardas que precisava falar com o Lord imediatamente. Avalon não tinha ideia do nome daquele homem, mas podia reconhecer o pânico quando o via à sua frente. Adiantou-se, pedindo que seus homens saíssem do caminho. O Meistre idoso não pareceu reconhecê-lo imediatamente, e entendendo sua confusão, Avalon sorriu. Finalmente o velhote entendeu que como ele, o Senhor de Torralta e Farol do Sul, também fora apanhado pela chuva de maneira inconveniente.

- Meu senhor! Trago notícias do Porto de Vilavelha! Homens de Ferro desembarcaram em nossos portos. Nossas frotas não os atacaram, o que significa que vêm em paz. Contudo, achei de bom tom alertá-lo que rumores de uma batalha em alto-mar foram espalhados e confirmados. Ao que parece, um grupo de nascidos do ferro saqueou embarcações mercantis Hightower. Os homens utilizavam a foice negra dos Harlaw, e foram derrotados por seus homens! - Alarmado, ele parecia prestes a colapsar. Avalon deduziu que a força inimiga devia ser muito pequena, para passar pelas Ilhas Escudo sem ser percebida.

- Nossos dracares não interceptaram os nascidos do ferro? Qual o tamanho de tais forças? - Indaguei, confuso.

- O ataque evitado continha um único dracar, meu senhor. A galé caiu sobre os dois navios mercantes, e fugiu como uma besta marítima. Contudo, as forças da torre alva o capturaram e o trouxeram para Vilavelha, tomado como refém, bem como os dois navios que foram recuperados dos piratas. Agora, a força Greyjoy que se aproxima enverga cinco dromores imponentes, mas erguem cada um, uma bandeira branca. - Havia entendido tudo. Dickon vinha fazer uma visita. Sorriu, e o Meistre pareceu chocado. - M’lorde? Seria sábio confiar em homens de ferro?

- Meu bom Meistre, compreendo sua preocupação. Contudo, garanto que Dickon Greyjoy não ergueria uma bandeira branca se não estivesse aqui em missão diplomática. Não é o modo dos Homens de Ferro, artimanhas e mentiras. Eles destruiriam as Ilhas Escudo, ou tentariam, antes que fossem autorizados a passar pelo Vago. Certamente esta força estranha dos Harlaw que violou os acordos entre a Campina e as Ilhas, não corresponde ao seu posicionamento. Que os deuses me julguem, mas creio que teremos surpresas ao lidar com os mentores desta estúpida investida contra a paz de Vilavelha. Leve-me até os prisioneiros. - O Meistre abriu a boca para falar, mas foi interrompido pelo som de uma pequena procissão que se aproximava.

- Não será necessário, meu senhor. Eles estão bem aqui. - Homens montados e em armadura completa traziam sete prisioneiros a pé, acorrentados nas mãos e nos pés. Todos estavam amordaçados, e vestiam trajes típicos de piratas das Ilhas de Ferro. Apenas um deles mantinha o queixo erguido, o mais jovem de todos. O Lord Hightower tinha quase total convicção que aquele era o único nobre do grupo. O homem que vinha à frente trazia um escudo com a torre branca em fundo cinza de seu sigilo no lombo de seu cavalo, e parecia solene com aquele encontro. - Trago estes saqueadores para as prisões de Torralta, meu Senhor do Porto. Tenho a honra de ser Sor Derick Beesbury, Almirante do Pilar de Prata, dracar da frota Hightower.

- Seja bem-vindo, meu bom homem. - O recebeu, deixando que entrasse. O Meistre manteve-se ao lado da Voz de Vilavelha, enquanto uma enorme comoção se desenrolava em plenos portões de Torralta. Moradores e servos do castelo gritavam maldições e intempéries contra os sete prisioneiros amarrados sob a chuva, enquanto Avalon observava os cativos friamente. Pessoas de nascimento comum acumularam-se às portas da Casa, exigindo a morte dos invasores. Avalon estava chocado com tamanha audácia. O que, pelos Sete Infernos, aqueles imbecis estavam pensando?

Mais tarde, nos Salões de Torralta, Avalon sentou-se em sua grande cadeira de pedra, observando enquanto os guardas forçavam seus prisioneiros a ajoelharem-se, diante dele. Vestindo um comprido casaco cinza com fios prateados, sentiu o peso dos broches em forma de torre, que abotoavam suas vestes longas, cada pequena torre portando um rubi e um âmbar laranja no topo, simbolizando o fogo do Grande Farol de Torralta. Os cabelos soltos e a pele limpa conferiam-lhe a aparência de outra pessoa, bem longe do homem que recebera aqueles inimigos inesperados às portas. Olhou para todos os membros de sua família, que observavam em silêncio. Alerie, a filha donzela e a Pérola de Torralta, fingia ignorar os olhares masculinos sobre si, enquanto dois de seus trigêmeos permaneciam resolutos ao lado da irmã, quase homens feitos. O terceiro irmão era um acólito na Cidadela, e um grande orgulho para Avalon, por sua aptidão para os mais diversos conhecimentos. Antes que pudesse sorrir pensando nos filhos, assumiu sua expressão apática, ordenando com um gesto que retirassem as mordaças dos homens.

- Quem de vocês é filho da Casa Harlaw? Qual de vocês violou os Acordos de Paz, desperdiçando vidas da maneira mais estúpida que se pode desperdiçar. Qual de vocês jogou aos corvos o bom nome de uma Casa Antiga e Proeminente das Ilhas de Ferro? - Fez sinal para que seu Meistre se aproximasse. Ao fundo do salão, o Almirante Beesbury e seus homens observavam com prazer a humilhação de seus inimigos. - Quem de vocês é o obtuso que roubou a espada de sua família? - Meistre Edrigor ergueu a brilhante e obscura espada valiriana. A Anoitecer reluziu sob a luz dos archotes, atraindo todos os olhares presentes. Levantou-se, tomando a espada das mãos do homem de meia-idade e trazendo-a para o seu colo. Olhou o jovem rapaz nos olhos, sorrindo de maneira cruel. - Sei que é você, rapaz. Sua inexperiência e estupidez exalam. O que acharam que iria acontecer? Acreditaram que tomariam Vilavelha com meia dúzia de homens, uma espada antiga e muita determinação? Ou planejavam saquear minhas riquezas, a começar por dois carregamentos de temperos e frutas? Sinceramente, eu deveria tomar as cabeças de todos, e poupar o mundo de tamanha ameaça. Meu primo poderá respirar muito melhor em Jardim de Cima, sabendo que tais ameaças ao seu governo estarão exterminadas.

- Vai nos matar logo, ou prefere nos torturar de tédio? Vocês, damas perfumadas do continente, consideram-se importantes e inatingíveis. O jeito antigo ainda não morreu nas Ilhas de Ferro. O que está morto não pode morrer. - Cuspindo no chão, o garoto ergueu o queixo em desafio. Comovido, Avalon achou a cena triste e inspiradora, embora patética.

- O que está morto não pode morrer. - Repetiram os outros seis, mais loucos ainda.

Todos os presentes riram, enquanto os portões abriam-se para a chegada dos convidados do Lord. A comitiva Greyjoy tomou o salão, enquanto o mais imponente entre eles vinha à frente, vestido de negro. Os homens da guarda de Dickon chegaram a tempo de ouvirem as últimas palavras dos prisioneiros, e não pareciam muito felizes em verem o édito de seu Deus Afogado nas bocas daqueles incompetentes que haviam sido apanhados. Ao lado de Dickon, um homem mais velho caminhava. Sua armadura negra exibia uma placa de ferro no formato de uma foice prateada no peito, o que só poderia ser o pai daquele aprendiz de pirata. Notou que seus próprios homens tornavam-se apreensivos com a situação, as mãos descansando firmemente nos cabos das espadas. Haviam tantos homens Hightower ali, que imaginava que os pátios de treinamento estariam vazios àquela altura. Se ao menos entendessem que não havia a menor necessidade de tais precauções... Sorriu quando levantou-se e desceu os degraus até seu velho amigo, entregando a espada negra para seu Meistre. Não ignorou o olhar sedento de Lord Harlaw na direção do objeto. Estendeu a mão para o Senhor de Pyke, esperando que ele a apertasse pelo antebraço, como costumavam fazer quando eram tão jovens e estúpidos quanto o rapaz Harlaw.

- Vejo que todos esse anos não o pouparam, meu amigo. Parece extremamente velho e aborrecido. Problemas com seus vassalos? - Provocou, rindo. Certamente Dickon fora forçado a acompanhar Lord Harlaw na busca por seu filho, para impedir que o rapaz fosse executado após sua atitude impensada e absurda.

Embora soubesse que Dickon não gostava de deixar suas Ilhas, vê-lo ali era bastante agradável. Avalon lembrava que seu pai era um homem incrível, e o melhor dançarino de machados que já conhecera. Uma verdadeira inspiração para aqueles, como ele, que eram adeptos da arma e desejavam a maestria. Aquilo podia ser uma grande oportunidade de rever um amigo e selar uma aliança mais profunda. Além de demonstrar o poderio Hightower, que enquanto vivesse, nunca seria ameaçado impunemente. Os Harlaw veriam, naquela tarde que se transformava em noite, que os Protetores da Cidadela eram implacáveis quando se tratava de justiça, ou vingança. Afinal, era deles a tarefa iluminar o caminho. Ainda que fosse apenas da própria família.

   
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Re: Pátio de Treino.

Mensagem por Dickon Greyjoy em Dom Jul 09, 2017 12:48 pm

King
of the Iron Island

O sabor salgado da chuva misturava uma rápida sensação de desagradado à sua atual situação, que claramente era frustrante por um dos filhos de seus senhores vassalos terem desacatado suas ordens e utilizado navios de sua frota para saques e pilhagens. Alguns dos nascidos de ferro ainda haviam prendido suas almas ao passado, vivendo das maneiras de seu ancestral e antigo Rei rebelde, Euron Greyjoy, conhecido como Olho de Corvo. Eram naturalmente, todos foras-da-lei e indignos por violarem a integridade dos Sete Reinos. O acordo de seus antepassados era claro. Nenhum saque, nenhum estupro. Não em Westeros. As Ilhas de Verão eram agora o nosso verdadeiro alvo. Lorde Harlaw fazia presença ao seu navio e sua expressão era tão desgostosa quanto ao do velho homem. Seu olhar mantinha-se em frente, buscando os primeiros indícios de terra firme, enquanto algumas ondas ameaçavam inutilmente sua posição. Desviou trajeto de seus olhos até seus homens, estes estando bem armados e atentos aos guardas de Harlaw, carregando o emblema dos Greyjoy entalhado em suas malhas de couro, com seus olhares penetrantes e cheios de orgulho.  

Em algum tempo, ainda durante A Guerra dos Cinco Reis, Balon Greyjoy havia proclamado-se Rei e reclamado a Cadeira de Pedra do Mar, falhando miseravelmente em sua campanha pelo Norte. Em seguida, surgiu Euron, tio de uma de suas antecessoras. Este era um dos piores elementos e talvez uma fonte de orgulho aos adeptos do velho costume dos nascidos de ferro, de fato uma chama perigosa aos anos de trabalho do Greyjoy, Dickon. Todos os anos em Essos e navegando pelos mares mais além, ensinaram que o ódio era algo que todos procuravam semear durante seus processos de aprendizagem, bem como aconteceu consigo. Matar seu pai era considerado fratricídio, de acordo com as leis dos homens do continente, porém um conhecedor das crenças de seu povo saberia que aquilo era chamado de “O preço de Ferro”.
 
Durante todos os anos afastado de Pyke, o haviam ensinado exatamente a como ser uma pessoa totalmente independente de seu falecido antecessor e pai, qual ele ainda prezava apesar de tudo. Os Reis anteriores a si foram todos péssimos governantes e suas vitórias resumiam em migalhas, cada um com sua patética ambição particular, assim como ele mesmo possuía as suas, talvez menos estúpidas. Balon conquistou apenas derrotas após uma inútil chance de escravizar os Nortenhos e Euron fez o favor de voltar com a Frota de Ferro intacta, deixando os Lannisters em péssimas condições de defesa contra a fúria de Daenerys Targaryen, a Rainha Dragão. Não era surpresa que com a queda da Louca, a Conquistadora resgatasse sua aliada Asha e voltasse seus olhos para as Ilhas, mais uma vez. A Maré de Fogo subiu, nossa frota foi reduzida à cinzas, e a Rainha de Ferro foi instaurada, submetida à união dos Sete Reinos. Logo após uma série de eventos, de acordo com os jogos dos tronos, vieram os Blackfyre e veio um governo definitivo aos demais senhores do continente, sendo dominados pelos estandartes dos Dragões Negros.  

Como novos Reis e Rainhas de Westeros, os Blackfyre preferiram não arriscar uma derrota que poderia ser uma afronta aos anos de construção de uma dinastia de bastardos, optando ações diplomáticas para manter os homens de ferro sob controle, dando continuidade ao acordo que Asha Greyjoy tinha feito com Daenerys. A Ilhas de Ferro eram agora um reino independente. Como tal, precisava de meios para manter-se. A Ilhas de Verão eram foco de interesse, bem como o Pacto Verde. A associação com a Campina em troca de comida e preços acessíveis, enquanto a Frota de Ferro protegesse as Ilhas Escudo e mantivesse a integridade da região. Mesmo os piratas criminosos evitavam Vilavelha ou a Árvore. Sabiam que suas famílias poderiam passar fome no inverno. O que tornava Lannisporto um alvo constante, bem como Guardamar. A maior prova de sua soberania sobre os seus baseava em seu regime de governo ditador e essencial, bem como uma coroa ostentada em sua cabeça, diferente das outras, não possuía luxo ou peças de ouro ou bronze, mas sim feita de um tipo de madeira desconhecido aos homens de fora.  

-Majestade, estamos próximos das Ilhas-Escudo e há algum tempo de viagem até VilaVelha, algumas horas até o ponto de encontro combinado com os guardas Hightower. -

A voz do anunciado era grossa e ríspida, mantendo-se de certa maneira controlada na presença do senhorio. Dickon, porém, com um olhar frio e praticamente sem vida, olhou inexpressivo e segurou sua própria língua para não parabenizar por ter falado o óbvio. Durante todo caminho, horas de navegação, o silêncio foi exatamente sua arma mais precisa, só para não acabar em discussão com seu vassalo. O fato era que Harlaw tampouco estava preocupado com a vida de seu filho, ele ainda detinha capacidade de fazer mais proles. Sua preocupação era com a lâmina ancestral de sua família, um precioso aço de Valíria, a cidade berço dos dragões, e de diversas culturas para Além do Mar Estreito. Oh sim, Anoitecer possuía uma beleza indescritível aos olhos de qualquer mero mortal, o Greyjoy pôde comprovar tamanha beleza com seu próprio campo de visão, durante o cortejo que o senhor seu pai dera uma vez, em Dez Torres. Sede ancestral dos Harlaw.  

Após seus olhos capturarem o pequeno arquipélago, lembrou que aquelas Ilhas já tinham sido um local pertencente aos domínios de sua casa… Bom, ao menos por uma quinzena, quando Euron tomou aquele conjunto de ilhas com sua frota e depois recuou, após a derrota iminente do Leão Dourado diante de uma união da casa Stark e da casa Targaryen. O Campo de Fogo, quando Daenerys derrotou as forças Lannister na Campina, bem como os Tarly traidores, acabou dando origem à uma campanha de Willas Tyrell e a Frota da Árvore, para retomar as Ilhas. Cersei caíra, e as Ilhas foram restauradas aos seus antigos senhores... Ora, não era uma visão exatamente nostálgica, nunca havia vivido nesse tempo, mas tãmpouco poderia deixar de contemplar as capacidades de seus Dracares. Com uma bandeira branca, pendurada ao lado do estandarte de sua casa, prosseguiu sem quaisquer incômodos até a costa de VilaVelha, onde fora chegar horas mais tarde, curiosamente sem qualquer hostilidade ou atrito semeado pelo idiota do filho de seu vassalo.
 
Seguiu em frente e saiu de seu navio, onde deixou alguns para tomar conta, indo de imediato ao encontro de um velho amigo, atual senhor daquele local, à cavalo. Cavalgou no garanhão por longos minutos até Torralta, lar ancestral dos Hightower. Durante todo trajeto podia sentir os olhares curiosos e repletos de repugnância dos moradores locais, coisa que não afrontava, contudo deixavam claros os temores que cada um deles possuía da Lula Gigante dos Greyjoy. A cidade era fortemente guarnecida e bem preparada, notou isso com um conjunto de diversas patrulhas que cruzara pelo caminho em pontos estratégicos bem estudados pelos estrategistas de Avalon. Não sabia se encontraria mais um amigo ou apenas uma hostilidade de sua parte… não iria culpá-lo, já que, para todos os efeitos, na visão de terceiros fora ele quem ordenara o ataque contra seu povo.

Quando este, acompanhado de alguns guardas e da presença de Lorde Harlaw, cruzou os portões e adentrou o teto de Avalon Hightower, foram aos estábulos e deixaram seus cavalos ali, indo de encontro à uma reunião que poderia render muitas nostalgias.  Fazia tempos que estivera tão animado, procurando ocultar isso dos olhos de Harlaw. Quando entrou no salão espaçoso daquele local desconhecido, Dickon manteve sua compostura e aproximou quando achou o momento conveniente para um cumprimento. Um aperto de mãos, oferecido pelo próprio Avalon, que demonstrava ser o mesmo brutamontes humorado que sempre foi, assim como ele lembrava. - Ora, bem sabe que minha família é conhecida pela sua beleza e… bem, outros dotes. - Disse em um sorriso malicioso, lembrando dos tempos que ambos frequentavam os bordéis mais luxuosos das Cidades Livres e saíam arrumando confusões, brigas estas provocadas por si, nas quais Avalon saía em sua defesa e os dois cuidavam das costas um do outro. Sabia que o Lorde de Torralta tinha gostos peculiares, já o pegara observando-o em sua juventude, mas a amizade que os unia superava os desejos da carne. Não era incomum que rapazes jovens fossem feitos de esposas de sal em navios nos Mares de Verão, onde a viagem longa e os dias violentos tornavam os saqueadores de ferro famintos. Não era algo estranho à ele, embora não compartilhasse de tais desejos.

Seus olhos repousaram sobre os traidores e escutou gracejos vindos do mais novo, sujeito que perdeu a espada de sua família e insistia em sua insolência. Ele podia observar a espada com um homem, rapidamente julgado como um Meistre, pelas vestes. Voltou os olhos ao garoto e os que estavam acompanhando, amordaçados e subjugados. - Você desobedeceu meus mandatos, pegou alguns dracares de minha frota e partiu em uma missão suicida, sem meu consentimento, envergonhando o senhor seu pai, por fim perdendo Anoitecer. - Dickon não encontrava uma posição para reclamar tal espada. Ela não era sua para exigi-la de Avalon. Além disso, estava em menor número e em termos mais diretos, estavam em terreno desvantajoso. Avalon poderia muito bem tomar a espada para si, se desejasse. Ou deflagrar a morte de todos naquela sala, invocando seus parentes de Jardim de Cima numa guerra que certamente perderiam, já que as frotas de ferro ainda não haviam recuperado sua força de outrora. Seu maior desejo era arrancar o coração do patife traidor com suas próprias mãos, mas optou por manter sua racionalidade e poupar fôlego em uma conversa diplomática. Com sua astúcia, em forma de garantir seus direitos, sorriu e perguntou. - Não irá oferecer sua hospitalidade e proteção? Vocês dos Sete não consideram os votos de hospedagem sagrados? - Questionou amigavelmente, procurando primeiro garantir, não só sua segurança, mas dos que o acompanhavam ali. Acreditava que um respeito pela amizade ainda permanecia e Avalon não iria atacar ou preferir danos contra ele, porém, não poderia falar pela língua de seus vassalos, estes ele poderia simplesmente matar por não ter nenhum apreço, exceto pelos homens de Dickon, que representavam seu Rei. Até onde o Lorde Hightower sabia, todos os Harlaw eram seus inimigos, e ele poderia retribuir seus ataques como bem entendesse.

Notas:Nenhuma



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Re: Pátio de Treino.

Mensagem por Avalon Hightower em Qua Jul 19, 2017 12:29 am

"Knowledge is the light in the dark..."
 
       
- Ora, mas é claro que sim! Os direitos do hóspede são sagrados, e como protetora da Cidadela e antigo centro da Fé nos Sete Reinos, a família Hightower jamais negaria tal honra à visitantes. Muito embora as razões de tal visita tenham sido no mínimo, peculiares. - Rebati, erguendo-me. Com um sinal, fiz menção para que um de meus servos servisse pão e sal a todos os presentes. - Como devotos do Deus Afogado, compreenderei aqueles que não desejarem a comunhão sagrada. Não ficarei ofendido. - Avisei dois tons mais alto, quando vi que alguns homens não pareciam inclinados a comer o pedaço de pão mergulhado em sal, que lhes fora oferecido. - Meu amigo, nós de Torralta temos uma mente afiada, como a lâmina de nossas espadas e machados. Nunca esquecemos uma verdadeira amizade. Ou uma ofensa. - Acrescentei, mirando Lorde Harlaw. - Seu filho o desonrou, m’lord, roubando a arma ancestral de sua própria família e performando movimentos que poderiam ter destruído a paz que reúne o reino das Ilhas de Ferro com o território da Campina. Pode parecer impressão, senhor, mas questiono a lealdade de Dez Torres ao seu rei e soberano de direito. Pyke e os decretos da lula gigante não significam nada para a foice prateada?

- Significam tudo. - Respondeu o homem mais velho, e suas orelhas avermelharam. - Vai pagar o preço de ferro pela espada de minha família, ou pretende simplesmente roubá-la? Arme o garoto com a Anoitecer e enfrente-o. Se o matar, pode ficar com ela. Se ele vencer, a espada é nossa.

- És um homem corajoso, Lorde Harlaw. Mas não sou um homem de ferro. Sou o Farol do Sul, e não me submeto aos costumes de outro reino áspero, nem às tradições de outro rei, ainda que seja um amigo. Não a menos que seja este o meu desejo - Sorri para Dickon, adiantando-me até o Meistre. Tomei a espada belíssima de suas mãos, caminhando até o rapaz acorrentado. - Contudo, rapaz, não desejo que considerem os Hightower covardes. Pegue a espada. Guardas, deixem o garoto se mover. E tragam meus machados. - Ele era um rapazote verde. Seria uma ótima oportunidade de praticar com as duas mãos. Notei a surpresa no olhar de Dickon, quando me entregaram duas armas. Quando nos conhecemos em Lys, eu mal podia erguer uma daquelas coisas.

    Àquela altura, o Grande Salão estava silencioso como um túmulo. Embora a luz dos castiçais dançassem, e vinho e comida percorressem o local enquanto os homens de ferro alimentavam-se sem cerimônia separados de minha corte pessoal com uma mesa comprida só para eles, o centro do local preparava-se para receber o combate singular. Sentado no cadeirão do Lord, evitei olhar para Alerie. Não comi ou bebi durante todo o jantar. O mesmo não podia ser dito de meu adversário. Ele empunhava a Anoitecer de seus ancestrais, sob o olhar furioso de seu pai. Bebeu um caneco de cerveja e comeu meio frango, até que o Harlaw mais velho o ordenasse que tivesse compostura e se preparasse para a luta. Os outros jovens que haviam sido presos com o rapaz riram, quando ele obedeceu ao comando. Como se algum deles tivesse as bolas para ignorar as palavras de um homem como aquele. Lorde Harlaw era uma incógnita, mas em nenhum momento duvidei que se pudesse, ele mesmo mataria seu filho estúpido. Seus olhos mantinham-se sobre Anoitecer como um lobo faminto. E se ele não matou o filho sobre a mesa do banquete e tomou a espada ele mesmo, tive certeza de que se deveu ao respeito pelo seu rei, e pela desvantagem numérica evidente.

      Do outro lado do salão, Alerie comia levemente, impassível. A Pérola de Torralta atraia os olhares ao seu redor como uma força irresistível. Mas a presença de Dickon evitou qualquer incidente ou comentário inapropriado. Ela parecia entediada e nem um pouco preocupada com minha segurança. Mas tinha certeza de que era tudo um número de teatro. Ela era ótima em mascarar as emoções na frente de estranhos. Devia estar gritando por dentro. A forma como seu olhar se prendeu ao meu com intensidade, apenas confirmou que Alerie odiava a ideia do combate pela espada. Contudo, a ofensa dos homens de ferro não poderia passar impune. Eu entendia aquilo, Dickon entendia aquilo. Ainda que já não fossem piratas há pouco mais de um século, comercializando e explorando o Mundo Conhecido ao invés disso, os filhos das Ilhas ainda cometiam atrocidades e pirataria para além de Westeros.

Ainda conheciam a vil realidade de um navio, e respeitavam quase mais do que ao seu deus, os códigos de conduta e navegação. Pagavam o preço do ferro contra os estrangeiros, tomando esposas de sal das Ilhas do Verão. Se eu perdoasse aquele gesto de um fedelho contra minha Casa, poderia muito bem convidá-los a saquearem os mares das Ilhas Escudo novamente. Toda a refeição foi uma antecipação. Comendo e bebendo discretamente, Dickon parecia confortável, e permiti-me analisá-lo um pouco mais. Era evidente que os direitos de hóspede o haviam relaxado um pouco. Gostei de ver que a vida o fizera bem. Parecia ainda tão capaz e tão independente quanto antes, muito embora esta constatação também fosse preocupante em outros aspectos. Aquele homem de Lys gostava de uma boa briga, mas era cruel quando se tratava de inimigos. Naquele instante, achei que seria melhor dar um fim àquilo tudo antes que ele pusesse, atacando o garoto Harlaw com as próprias mãos.

- Menestréis, silêncio, por favor. Obrigado. - Sorri, quando todos os olhares travaram-se na cadeira do Lord. Com desprendimento, segurei os dois machados em minhas coxas, Estalando os ombros doloridos do treino ocorrido mais cedo. O corpo ainda gemia, as juntas protestando sob os tecidos finos. Um dos meus pajens adiantou-se para atar minha armadura sobre a roupa, mas o detive com um gesto. Ainda que o silêncio fosse sepulcral, ouvi o aspirar forte de Alerie. Minha filha devia ter ficado furiosa,  naquele momento. Não olhei para ela, ciente de que poria tudo a perder se o fizesse. - Chegou a hora, garoto. Não o enfrentaria em metal, quando mal pode dizer que está vestido, nestes trapos de couro. Adiante-se, e vamos acabar com este embaraço para o senhor seu pai.  

- Meu nome é Erion da Casa Harlaw, Lorde de Torralta. Guarde o nome do garoto que vai matá-lo na frente da sua filha. Talvez eu a leve como esposa de sal, depois. Uma recompensa tão justa quanto a espada da minha família, não acha? - Ignorando suas preocupações, notei o suor em sua testa e a hesitação em seus olhos. Ele não sabia por onde começar. Segurando com as duas mãos a Anoitecer, mantinha as pernas firmes, aguardando que eu fizesse o primeiro movimento.

Respirando fundo, avancei em sua direção com o máximo de velocidade permitido por minhas pernas, agachando sobre meus joelhos no último instante, deslizando de maneira sôfrega. Erion tentou rebater um golpe que não veio, considerando que eu caíra sob ele. Antes que ele se recuperasse da surpresa, chutei seu calcanhar esquerdo com toda minha força, e o rapaz rosnou de dor. Ele cambaelou, enquanto eu erguia-me novamente. Apoiei a mão direita no chão de mármore, tendo dificuldades com o peso em uma das mãos. Os segundos em que atrapalhei-me com as duas armas, quando não sabia usá-las bem, foram essenciais. O garoto tirou vantagem do vigor de sua juventude, superior ao meu. Com um chute em minhas costelas, mandou-me rolando à alguns metros de distância. Naquela altura alguns nascidos do ferro começaram a rir e gritar intempéries, incentivando o rapaz. Com um único movimento rígido, todos os meus homens desembainharam as espadas ao mesmo tempo, até mostrar o aço, sem contudo tirá-las dos cintos. Aquilo silênciou os visitantes, mas Dickon estava rindo. O maldito sabia que eu não era proficiente em machados, quanto mais nas duas mãos.

Uma das minhas armas perdeu-se, mas a mão direita ainda estava armada quando Erion caiu sobre mim. Tentei aparar seu golpe, mas a espada valiriana cortou através do cabo de meu machado. O impacto, contudo, empurrou o garoto para trás. Ele não esperava pelo ocorrido, muito menos eu. Havia escutado sobre as qualidades do aço da Antiga Valíria, mas nunca as confirmado em primeira mão. Abri as pernas rapidamente, e a lâmina desceu próxima demais de minhas partes. Seu fio deslizou levemente, cortando minha coxa de forma superficial. O sangue começou a manchar o cinza, mas quase não doía, tão fino o fio da espada. Sua distração e o prazer pela ação bem sucedida deram-me tempo o bastante para chutar-lhe para longe, no estômago. O ar faltou-lhe, e o rapaz abriu a boca de forma cômica. Largando o pedaço de cabo quebrado em minha mão esquerda, arremessei a lâmina e o pedaço que haviam ficado na direita, contra ele. Erion desviou-se, mas acabou caindo de costas, em meio ao desespero.

Rolando sobre mim mesmo, fui deixando um fino rastro de sangue, enquanto aproximava-me do outro machado. Às minhas costas, podia ouvir o garoto se levantando, cuspindo um misto de sangue e saliva no chão do meu salão. Não me atrevi a olhar para trás. Embora ele estivesse vindo, eu também estava cada vez mais perto… Finalmente envolvi o cabo do segundo machado, girando o braço sobre minha cabeça e arremessando-o sobre o ombro. O nervo de minha omoplata esticou-se em excesso, e um grito quase animalesco escapou de meus lábios, devido à dor e à fúria do gesto. Um baque surdo seguido de outro mais alto irrompeu o silêncio. Caindo de joelhos, senti uma gota de suor pingar enquanto afastava minhas vestes molhadas do corpo, sacudindo-as. Erion tinha meu machado cravado em um de seus ombros. Seu olhar dolorido era uma combinação de choque e medo. Ele largara Anoitecer, as duas mãos envolvendo minha arma. Se ele puxasse, o sangramento o mataria lenta e dolorosamente. Eu pretendia ser misericordioso.

- É um triste desperdício, filho. - Resmunguei, penalizado pela cena. Abaixei ao seu lado e empunhei Anoitecer. Ela era pesada, mas seria fácil acostumar-me àquela qualidade. - Nossa disputa acabou. Valar Morghulis. - Com um único golpe, a espada decepou a cabeça do rapaz. O sangue espirrou e depois escorreu. Todos no salão seguraram a respiração ao mesmo tempo. Algumas servas gritaram e viraram o rosto. Eu nunca havia cortado a cabeça de um homem antes. Nunca havia usado uma espada como aquela, também. Não devia ser tão simples, tão fácil. Algo me dizia que passar por nervos e ossos devia ser mais complicado. - Seu Deus Afogado falou. Paguei o preço de ferro, Lorde Harlaw. Agora, guardas, deem aos marujos de Erion o mesmo destino de seu capitão.

Adiantando-se, meus homens puseram os rapazes que riam com Erion no banquete de joelhos. Nenhum deles parecia sequer possuir o mesmo rosto que sorrira tanto antes. Crianças estúpidas, que pensavam serem capazes de vencer leis e contextos maiores do que a vida de jovens numa ilha qualquer perdida no extremo oeste. Perderam suas cabeças chorando e com medo. Não foi uma visão bonita depois de um jantar. Pior ainda seria limpar aquilo tudo.

- Todos os corpos serão autorizados à retornarem para suas famílias nas Ilhas de Ferro, Vossa Graça. - Falei, olhando para Dickon. - Seus homens e o senhor estão convidados a passarem a noite em Torralta, e partirem em segurança pelo amanhecer. Lorde Harlaw, meus pêsames por suas perdas. Está livre para velar por seu filho como uma Casa nobre o faria, aqui em meu castelo.

- Não vou velar por esse merdinha. - Lorde Harlaw cuspiu no chão, ultrajado. - O dê de comer para os cães, se os possuir. Não passarei mais uma única noite no lugar onde minha Casa conheceu a desgraça.

Ele partiu, e alguns homens o seguiram. Provavelmente sua comitiva. Pouco feliz e extremamente desgastado por aquele dia infernal, entreguei Anoitecer a um de meus escudeiros, que a levou para limpar. Aproximei-me de Dickon, desejando cumprimentá-lo antes de retirar-me. Não quis alarmar minha filha, mas a ferida em minha perna começava a arder progressivamente, e o sangramento exagerado já provocava alguma tontura, embora fosse lento e irritante.

- Sinto muito pelo espetáculo grotesco, meu amigo. Amanhã conversaremos melhor. - Prometi, pousando uma de minhas mãos em seu ombro. Antes que pudesse dizer mais, o chão faltou-me. Caí sentindo um dos braços de Dickon apoiando-me.

- M’lord! - Ouvi a voz de meu Meistre, ao longe. - A senhora Alerie mandou me chamar assim que feriu sua perna. Vamos, seus asnos, peguem seu senhor e o levem para meus aposentos. Preciso suturar o ferimento. Com sua licença, vossa graça.

Em meio às névoas que envolviam minha visão, vi quando os servos adiantaram-se para limpar o salão, enquanto os homens de ferro voltavam a beber de seus canecos, escarnecendo Erion da Casa Harlaw, o frango sem cabeça. Alguns dos homens já riam, mas eu supus que aquela ofensa nunca seria esquecida por Dez Torres. Tampouco por mim. Seria um lembrete para que nunca mais cruzassem os domínios de Vilavelha. Um lembrete dos motivos para que fossem um reino independente, e para que fossem submetidos à um tratado de paz desde que suas frotas haviam sido incendiadas por completo, na Maré de Fogo. Certamente a Anoitecer precisaria de reformas. Os Hightower iluminavam o caminho. Precisariam de um nome e aparência mais dignos para sua nova arma ancestral.

Encerrado para Avalon.

   
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