Ala Marfim.

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Ala Marfim.

Mensagem por Deus de Muitas Faces em Qui Maio 18, 2017 11:45 am



Ala Marfim

O andar destinado à família do Lord recebe o nome de Ala Marfim por sua coloração branca e o luxo em suas acomodações, superados apenas pelo andar do Lord. Aqui, parentes e convidados de honra são mantidos, com servos para atenderem às suas necessidades e mostrar-lhes o castelo. Da Ala Marfim é possível acessar o salão de banquetes rapidamente, com uma escadaria exclusiva que pode levar também às cozinhas da fortaleza, nos níveis mais baixos.
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Re: Ala Marfim.

Mensagem por Alerie Hightower em Sab Maio 20, 2017 10:58 pm


Love of my life
Can you still see the heart of me?



O dia já havia raiado há algum tempo, mas era uma manhã fresca e radiante, como o habitual na Campina. Devido à proximidade com a costa, constantemente a brisa marítima vinha açoitar os esvoaçantes tecidos das cortinas que bailavam pelo ar. Junto vinha o constante cheiro da maresia que os habitantes de Torralta já estavam acostumados. Os corredores do castelo já estavam movimentados, criados de um lado para o outro cumprindo seus afazeres, alguns nobres que vinham até o encontro do lorde do castelo, uma vez que os Hightower eram uma família renomada e poderosa, além de possuírem uma enorme fortuna e um exército forte. Aquela era uma manhã tranquila, tudo funcionava maravilhosamente bem, todavia, as paredes de Torralta ainda escondiam um enorme pesar desde o falecimento da jovem Lady Hightower. Uma tragédia que devastou a todos, principalmente os filhos, que sentiam extrema falta da mãe. Alerie, a filha mais velha do casal tomou para si as responsabilidades da mãe e não deixava nada a desejar, muito pelo contrário, sabia exatamente como lidar com as tarefas do dia a dia.

Naquela manhã já havia cuidado de todos os seus afazeres, desde preparar as vestimentas dos irmãos e de seu pai, conforme cada capricho, até organizar a cozinha e ordenar o que seria servido no almoço. Havia aproveitado e verificado com o castelão do castelo as provisões, se havia necessidade de que algo fosse comprado e pediu que um bom vinho fosse comprado para seu amado pai. Era uma jovem de imensurável formosura, inteligente, talentosa, possuía imenso conhecimento, conhecendo até mesmo outras línguas com fluência. Uma noiva cobiçada por muitos, mas até então, Alerie havia recusado todos os pedidos de casamento que havia recebido, logo ganhando a alcunha de “A Pérola de Torralta”. Já havia deixado seu pai ciente que não tinha planos de se casar tão cedo, desejava se dedicar a ele e aos irmãos, também gostaria de um marido inteligente, alguém que compartilhasse da visão erudita do mundo assim como ela, algo muito difícil se tratando da grande maioria dos homens de Westeros.

Todavia, diferente de todas as jovens ladys de sua idade, em seu momento de descanso, Alerie encontrava-se no átrio da Ala de Marfim, sentada de maneira displicente e um pouco relaxada. Sobre a saia negra de seu vestido, havia um enorme e pesado livro, de páginas amareladas pelo tempo, denunciando que era muito antigo. Os olhos cianos da jovem Hightower não desviavam um minuto de sua leitura, seu cenho estava levemente franzindo, seu semblante denunciava a total preocupação sobre o assunto que lia. A ponta do dedo do indicador direito, percorria a página, não precisava daquilo era obvio, mas era involuntário, principalmente quando se encontrava imersa na leitura daquela maneira. Poucas eram as pessoas que usavam a Ala Marfim naquele horário, sabia que poderia desfrutar de sua leitura sem ser perturbada. Não era fácil dedicar tempo aos estudos, uma vez que muitos queriam que ela fosse como as outras damas, mas para sua sorte, seu pai a compreendia e não se importava que ela trocasse as aulas de bordados, por horas na biblioteca. Quando virou a página seu semblante de indignação ficou ainda mais evidente com o que lia.

O Levante assolou os Sete Reinos por sete anos. Os desentendimentos entre o Trono de Ferro e o Septo Estrelado começaram no reinado do Rei Aenys I Targaryen. As constantes (apesar de serem sem intenção) afrontas à Fé dos Sete pelo Rei Aenys levaram à eclosão de uma rebelião armada. A primeira dessas afrontas ocorreu nas Ilhas de Ferro quando o autoproclamado Rei Lodos renascido foi derrotado por Goren Greyjoy e teve sua cabeça enviada para Aenys. O rei, em consideração, garantiu um benefício a Greyjoy, que decidiu expulsar a Fé dos Sete das Ilhas de Ferro, o que enfureceu o Alto Septão. O segundo enfrentamento ocorreu em 39 d.C. quando o Príncipe Maegor, casado com Cerysse Hightower, tomou uma segunda esposa, Alys Harroway. A Fé dos Sete não tolerava a bigamia, e Aenys, tentando aplacar a fúria do Alto Septão (que era tio de Cerysse), despiu o meio-irmão de seus cargos e o exilou em Pentos. Um renomado septão chamado Murmison tomou seu lugar como Mão do Rei. O confronto era inevitável, todavia, e irrompeu pela terceira heresia em 41 d.C. quando Aenys casou sua filha Rhaena com seu filho e herdeiro Aegon. O incesto era visto como um ato horrendo pela Fé, e o Alto Septão emitiu uma carta chamando Aenys de "Rei Abominação". Lordes piedosos e até mesmo os plebeus que uma vez amaram Aenys se viraram contra ele. Murmison, que realizara o casamento de Rhaena e Aegon, foi despedaçado por Pobres Companheiros. Os Filhos do Guerreiro, por sua vez, fortificaram o Septo da Memória, tornando-o uma cidadela de onde poderiam enfrentar o rei. O Levante da Fé Militante começava.

Quando Pobres Companheiros escalaram as muralhas da Fortaleza Vermelha e tentaram matar a família real (que foi salva pela coragem da Guarda Real), Aenys se retirou para a segurança de Pedra do Dragão. Ali, ele logo adoeceu e morreu (alguns dizem que a Rainha Viúva Visenya Targaryen, sua tia, o matou). Visenya voou em Vhagar para buscar Maegor e Balerion, e ele logo foi coroado, usurpando os direitos dos filhos de Aenys. Assim, Maegor voou para Porto Real e pousou na Colina de Visenya, reunindo seus apoiadores. Visenya desafiou qualquer um que questionasse o direito do filho de governar a provar o valor de suas acusações, e o Capitão dos Filhos do Guerreiro aceitou. Sor Damon Morrigen desafiou Maegor a um Julgamento de Sete e o rei aceitou. Sor Damon e seis Filhos do Guerreiro foram derrotados por Maegor e seus seis campeões, embora apenas Maegor tenha sobrevivido. Ele ficou em coma por trinta dias e, ao acordar, incendiou o Septo da Memória em Balerion com os Filhos do Guerreiro dentro. Na Batalha da Ponte de Pedra, Maegor esmagou os Pobres Companheiros, de modo que o Vago correu vermelho por léguas e a ponte e o castelo se tornaram conhecidos como Ponteamarga. Outra batalha foi travada no Grande Ramo da Água Negra e terminou numa outra decisiva vitória de Maegor. O levante durou por todo o reinado de Maegor, que colocou a cabeça dos Filhos do Guerreiro e dos Pobres Companheiros a prêmio. Nem a morte do Alto Septão e sua substituição por outro mais complacente abalou a determinação da Fé Militante. Por fim, os métodos brutais de Maegor haviam virado o reino contra ele, e sua própria família se rebelou. Em 48 d.C., a Fé Militante atacou de novo, liderada por Sor Joffrey Dogget e pelo Septão Moon. Maegor caiu logo em seguida, morrendo no Trono de Ferro antes de ser atacado pela Fé Militante ou por seu sobrinho que reivindicara a coroa, o Príncipe Jaehaerys.

Com a morte de Maegor, Jaehaerys ascendeu ao Trono de Ferro e anistiou a Fé Militante mediante a sua dissolução. Ele prometeu proteger a Fé em troca disso, consertando a ruptura entre o Trono de Ferro e o Septo Estrelado. Muitos consideram que os Pobres Companheiros continuaram como uma ordem proscrita perambulando por Westeros. Meistre Yandel, por exemplo, sugere a possibilidade de que o Pastor, um profeta maneta que liderou os revoltosos de Porto Real no Assalto ao Poço dos Dragões durante a Dança dos Dragões, fosse na verdade um Pobre Companheiro. A Fé Militante só seria restaurada em 299 d.C. durante o reinado de Tommen Baratheon por sua mãe, a Rainha Regente Cersei Lannister. Todavia, ela também experimentou o peso da mão da Fé Militante, uma vez que pesadas acusações recaíram sobre ela, depois de tentar prejudicar a então rainha Margaery Tyrell.

Teria continuado sua leitura, mas um leve pigarrear veio chamar sua atenção, tirando totalmente sua concentração. Mentalmente praguejou, mas contentou-se em morder os lábios contendo-se diante da mulher rechonchuda. Lady Bulwer estava em sua casa desde sempre, era o braço direito de sua mãe. Já era uma mulher mais velha e alguns fios brancos se misturavam aos castanhos escuros, o rosto redondo não ressaltava em nada sua beleza, se é que havia alguma. Em silêncio Alerie esperou até que a mulher falasse e não tardou para que isso acontecesse: — Uma donzela de sua idade deveria estar se dedicando a outras coisas, milady. —  Afirmou com rispidez. A Hightower revirou os olhos e suspirou desgostosa: — Outras coisas? Quais tipos de coisas? Tipo as coisas que os homens têm dentro das calças? — O cinismo em sua voz era evidente e não se preocupava nem um pouco com o que falava.

A mulher, porém, ficou com as bochechas vermelhas como duas maçãs bem maduras, totalmente desconcertada com as palavras de Alerie que parecia se divertir com a situação: — Deveria estar treinando bordado, melhorando seus pontos. Tanto estudo não servirá de nada quando se casar. — Afirmou mais uma vez na tentativa de argumentar com a jovem. Os dedos esguios ajeitaram a tiara no topo de sua cabeça e em seguida suas madeixas, seus olhos cianos firmaram-se aos castanhos da mulher: — Primeiramente não pretendo me casar tão cedo. Papai e meus irmãos precisam de minha presença aqui. Outro ponto. Não pretendo costurar o fundo de calças de homem nenhum. Minha inteligência não será desperdiçada dessa maneira. E uma última consideração. Não sou como essas jovens que você está habituada. Que pensam apenas em arrumar um marido para satisfazer a curiosidade sobre os atos carnais que acontecem após o casamento. Preciso de um homem que tenha um cérebro também, não apenas... Enfim. Compreendeste o que eu disse? — Era uma pergunta retórica, mas que não obteve resposta, passos interromperam a conversa e esses eram bem conhecidos aos ouvidos da Pérola de Torralta.



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Re: Ala Marfim.

Mensagem por Avalon Hightower em Qua Maio 24, 2017 12:26 am

"Knowledge is the light in the dark..."
 
          Os meus aposentos eram silenciosos como os lábios de um cadáver. A penumbra insistia, agonizando diante dos poucos raios de sol que infiltravam, abrindo caminho cavalgando no ar salgado da manhã. Ao longe, os sons de Vilavelha se erguiam, caóticos e traiçoeiros ao misturarem-se com o canto agudo das gaivotas. Eu odiava aquelas aves barulhentas, mas lembrava-me de um tempo em que não ouvi-las trouxera saudades ao meu peito. Naqueles anos em que viajei por toda Westeros, eu era só um garoto. E aprendera a me tornar um homem, não por valores ou moral, mas pelos dons que meu pai julgava os mais adequados. Lord Uther era firme demais, rígido e duro demais. O pior aspecto que um Hightower poderia ter. Era cauteloso, mas ainda mais orgulhoso. O bastante para destruir nossos vassalos, os Bulwer. Ainda que sua razão fosse legítima, ao vingar a morte de minha tia, ele poderia tê-la evitado se não a tivesse obrigado a casar com um lunático, em primeiro lugar. Me perguntava se não seria esta a raiz de toda a infelicidade que se acometeu sobre nós, depois disto. Não só com a morte de Merida, minha esposa, mas com o destino sofrido por minhas irmãs na juventude. Dolorosos, os pensamentos enviaram uma nova onda de força sobre meu corpo, e quando o suor gotejou, manchando o chão por onde eu me movia lentamente, retornei ao presente. Os dois machados de duas lâminas pesavam em minhas mãos, e as têmporas flexionavam para mantê-los em posição. Sabia bem como manipular a arma na mão direita, mas a esquerda revelava-se um problema, em meus recentes experimentos.

       Como todo Hightower, eu era considerado um Lord Erudito, principalmente por ter adquirido conhecimentos necessários para forjar elos de um Meistre, como meu irmão mais novo fizera. Contudo, Lord Uther odiava que um Hightower fosse subestimado, e garantira que eu fosse formado numa arma. Como um homem de verdade, ele dizia. Pena que saber lutar tão bem não pudera fazer nada contra a doença nos intestinos, que o matara no penico. Arfando por sustentar a posição por muito tempo, com os braços erguidos sofrendo o peso do metal grosso, flexionei as coxas e os joelhos. Os músculos sob os calções de couro apertaram-se contra o tecido, e meus tornozelos estalaram baixo. Movi um dos pés, trazendo para o alto a mão direita, bloqueando um inimigo invisível com a esquerda. Não era a primeira tentativa, mas certamente a que durara mais tempo. E, embora meu corpo se movesse de maneira ínfima, dentro da minha carne um turbilhão ascendia, como os vulcões da Perdição de Valíria.

        Brandi o machado direito num movimento diagonal, girando o corpo para brandir o segundo machado. Achei que a dor em meu antebraço fosse provocar a queda do objeto, mas ele subiu firme, apesar dos protestos de meus tendões. As lâminas duplas brilharam sob os primeiros fúlgidos clarões de luz que se infiltravam, e urrei ao conseguir completar o movimento. Girando os dois pulsos ao mesmo tempo, trouxe as armas de volta à posição inicial, parando-as ao lado da minha cintura. A respiração acelerada era um contraste para o suor que colava a fina camisa de algodão ao corpo. Mordendo o lábio inferior com o esforço, puxei as duas armas para a frente, ambas numa linha reta. Então, como se fosse bloquear um golpe, cruzei os machados ao mesmo tempo, liberando-os em seguida com uma fúria que clamava por alívio. Larguei os dois objetos, secando o suor da testa e sorrindo, concordando com meus músculos que já fazia algum tempo sem prática. Talvez, num outro momento se tornasse mais conveniente retornar à atividade. De preferência com um instrutor e em outro lugar. Sim, outro lugar. Tirando as roupas para tomar o banho preparado pelos servos, olhei com humor para o machado que eu largara longe, fincado tolamente numa das cadeiras de madeira.

- Preciso começar a descer até os pátios para treinar, ou vou acabar destruindo meu quarto. - Ri, esfregando a água embebida de sabão contra o corpo. Um servo entrou com uma grande toalha, e secou-me com esmero, enquanto eu raciocinava à respeito do que a carta de minha tia dissera. Lady Desmera lamentava a morte de minha esposa nas últimas luas, mas avisava que ainda havia muito que eu podia fazer pela Campina, e que talvez tivesse encontrado algo que me interessasse em muito. Encerrando seu discurso, ela dizia aguardar-me em breve em Jardim de Cima, para uma conversa. Aquilo me assustou.

      Era conhecido que o governo da Rainha dos Espinhos fora próspero e essencial para a ascensão da Campina. Mas principalmente, era sabido que ela fazia sua vontade valer, de uma maneira ou de outra. Mesmo quando o corajoso, cruel e valoroso Uther era o Senhor de Torralta. Era com ela, sua irmã, com quem ele se aconselhava nos assuntos da Casa. Ela, uma Hightower de nascimento que nunca esquecera suas origens, e que sempre vira em suas irmãs e nele mesmo, extensões de seus filhos. Lady Desmera era protetora com relação à sua família, e rápida em eliminar inimigos. Da maneira mais cortês possível, a depender de seu bom humor. Tenso, dobrei novamente a carta com o selo verde da rosa, enfiando-a entre os outros documentos. Não queria pensar naqueles assuntos. Sabendo que meus filhos estariam o dia inteiro treinando com os guardas e em exercícios, fui à procura de minha pérola, em seus aposentos. Antes que eu pudesse bater à porta de Alerie, contudo, fui interrompido por uma de suas aias, que parecia bastante consternada.

- Bernie, o que aconteceu? Onde está minha filha? - inquiri, um tanto condescendente com seu alarde. Sabia que não devia ser nada demais.

- A jovem lady ignorou minhas orientações para que fosse até o septo orar pela boa vontade da Donzela, mais uma vez. Meu senhor, o septão de Vilavelha já está comentando sobre o desprezo da filha do Lord pelos Sete! Por favor, peço que intervenha. Não será bom que a imagem de Alerie fique manchada como uma descrente. - Ergui uma sobrancelha. O que os Sete tinham a dizer sobre o rapto de meu Garth? Meu filho fora roubado dentro de meu castelo, e em nenhuma das noites de sofrimento com que Merida se humilhara aos deuses, eu soube de uma visita da Mãe. Nem em seus sonhos. Educado, apenas sorri para minha serva. Sua mente ignorante não marecia minha irritação. Apenas uma comedida pena.

- Ora, Bernie, Alerie é minha filha. Os Hightower são a segunda família mais rica em todos os Sete Reinos. Ultrapassamos os Lannister nos últimos dois anos. Minha tia em grande parte, garantiu isso fazendo com que preferissem Vilavelha ao Lannisporto. Meu pai eliminou os ladrões, e pregou suas cabeças no alto de lanças nos mercados da cidade. Qualquer Lord bem nascido, proeminente, deveria se sentir honrado. Se um dia minha pérola concordar em um casamento. - Chocada que eu levasse a escolha de Alerie em consideração, minha serva pôs a mão sobre o peito magro. Seu corpo era como um graveto comprido, como aqueles insetos que imitam pedaços de madeira.

- Irei rezar pelo bem de Torralta, então, meu senhor. - Claramente desconsolada, ela curvou a cabeça. - A pequena lady encontra-se na Ala Marfim. Ela desejava ler, ao invés de reverenciar aos deuses.

          Ignorei os muxoxos de Bernie e caminhei com um sorriso, minhas botas fazendo barulho enquanto me aproximava da ala. Corredores e escadarias eram confusos na enorme fortaleza em forma de torre. Ainda era estranho como eu me sentia impressionado ao lembrar que minha casa era uma das maravilhas construídas pelo homem. Em todo o mundo. Distraído, levei um susto ao ouvir vozes exasperadas vindo do cômodo, antes que eu entrasse. Lady Bulwer, última parente viva de meu sobrinho, agora o jovem Lord Bulwer, Edara era uma convidada e refém de meu pai. Acabou apegando-se à família e assumindo as funções comuns a uma septã, educando Alerie. Nem era preciso dizer que ela devia ter se arrependido de tal função.

- Ora, minha cara Edara, não creio que Alerie deva se preocupar com funções tão frívolas quanto o bordado. Não quando pode aprender história, e evitar ofensas que levarão a família dela ao desastre. Como desafiar seus senhores, por exemplo. Seu irmão teria aprendido bastante, se tivesse conversado com a minha, antes de espancá-la por ser gorda. - Notei as variações de cor que passaram por sua face. Ao fim de minha frase, Edara Bulwer estava lívida, totalmente humilhada. Era bom que estivesse. Os deuses sabiam que eu só a tolerava por honra. Dirigindo-me à minha filha, beijei o topo de sua cabeça, sorrindo. - Obrigado por sacrificar-se pela família, minha pérola. Sua dedicação a mim e aos seus irmãos não passa despercebida. Seu pai é um homem orgulhoso. Sua mãe também estaria. - Embora eu nunca tivesse amado Merida Fossoway, admirava sua relação com Alerie, e a forma como ela a educara bem. - Fomos convidados à Jardim de Cima. Sua tia deseja a nossa presença em breve. Ao que parece, ela viajará para Porto Real e espera que já estejamos em seu castelo, quando voltar.

     Atirei o assunto, calando Lady Bulwer. Era bom que ficasse evidente que ela devia esquecer suas opiniões sobre as tarefas de Alerie. Eu estava grato, pois ela permanecia calada, ainda que à contragosto.
     
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Re: Ala Marfim.

Mensagem por Alerie Hightower em Qua Maio 24, 2017 6:45 pm


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A chegada do Lorde a grande Ala Marfim era um verdadeiro alívio para a jovem, mas sabia que talvez tivesse usados palavras pesadas e isso não fosse agrada-lo. Mas conhecia seu pai até certo ponto e sabia que a presença daquela mulher era algo que realmente o deixava irritado. Já havia escutado as histórias sobre os Bulwer, sobre o triste fim de sua tia pelas mãos do irmão daquela mesma mulher. Não tinha certeza sobre o tipo de sentimento que nutria por ela e parece que de alguma forma, apenas sua mãe a tratava de uma forma levemente respeitosa. A jovem ainda se recordava de sua mãe pedir a ela que tratasse a mulher com respeito, apesar de tudo que havia acontecido. Não a tratava muito diferente das outras aias, apenas um pouco mais ríspida as vezes, afinal Edara era a que mais tentava muda-la. Uma tentativa tola e que ela jamais permitiria que acontecesse. Tinha sua personalidade, seus princípios e os manteria até o fim de seus dias. Não se importava muito com opiniões de terceiros, apenas a palavra de seu pai era importante, a de Lady Desmera também.

Retumbante, a voz de Avalon Hightower ecoou por toda a sala, proferindo palavras cheias de rancor, algo que talvez nunca acabasse. O conhecia o suficiente para saber que ele alimentaria aquele sentimento até seu último suspiro e não podia e nem iria condena-lo por isso. A jovem aproximou-se de seu pai à medida que ele ganhava o salão, o sorriso de alívio por vê-lo era nítido, evitaria que ela ficasse batendo boca por horas com Edara. Seus braços esguios o envolveram na altura do tronco em um abraço terno, aconchegando-se nele como se necessitasse de proteção, abrigo e de certa forma, sempre desejava isso dele. Não podia negar que era mimada, não se lembrava da última vez que havia escutado um não, mas acreditava que fato ocorria por ela sempre ser uma filha exemplar. Não precisava de muito esforço para ver o quanto era parecida com seu pai e isso o enxia de orgulho. Sua mãe algumas vezes reclamava, mas também se orgulhava da inteligência e sabedoria de sua menina.

O beijo acompanhado das palavras doce de seu pai encheu seu peito de orgulho, deixando-a ainda mais segura de si e tendo a plena certeza de que não fazia nada de errado. Ergueu-se nas pontas dos pés alcançando o rosto do homem, depositando um carinhoso beijo: — Não há sacrifício algum para mim papai. Cuidar de tudo que a mamãe amava é um conforto para minha alma. Gosto de vê-lo bem, sei que esse era o desejo dela. Mas muito obrigada por suas gentis palavras meu pai. — Agradeceu carinhosamente, sorrindo para o mais velho. Seu olhar então dirigiu-se imediatamente para a mulher, seus lábios crispados e ar triunfante, de quem havia acabado de ganhar uma guerra, seus olhos fuzilavam a mulher, que naquele momento estava com sua moral totalmente esfregada no chão. Os Hightower jamais esqueceriam o que havia ocorrido, não importava quantos anos tivessem se passado.

Todavia, a tarde reservava uma notícia inesperada e seu pai era o porta voz dela, mas antes de responder afastou-se do lorde e continuou encarando a mulher: — Creio que já não há mais nada para fazer aqui, não é verdade Edara? Então por gentileza, queira se retirar. — Ordenou incisiva, mas com a polidez que uma verdadeira lady deve ter. Seus olhos acompanharam os passos lentos da mulher que finalmente abandonou o lugar, deixando pai e filha sozinhos e com a privacidade que necessitavam. Alerie então soltou seu pai, o perfume que o homem exalava agradava seu olfato, seus olhos atentos analisaram cuidadosamente a veste, suas pequenas mãos foram a gola do fino traje, a ajeitando corretamente, não sabia por que mas havia uma dobra que não deveria estar lá: — A criadagem deveria ficar mais atenta com suas vestes meu pai. — Choramingou com o semblante franzindo, certamente alguém ganharia uma imensa bronca até o final do dia. Se por ventura, algum dia viesse se casar, desejava que fosse com um homem como ele, não tinha adjetivos suficientes para descreve-lo em palavras.

Por alguns instantes fez de conta que não havia escutado sobre sua Tia Desmera, mas sabia que seu pai esperava uma resposta quanto a isso. Ela mordiscou levemente as rosadas bochechas por dentro e encarou o olhar do Lorde: — Tia Desmera fazendo sua vontade prevalecer. Sempre. — Comentou com um sorriso irônico nos lábios. O que ela poderia querer com eles e com tamanha urgência? Um convite feito assim, com antecedência com certeza significava alguma coisa. Seu semblante tornou-se um pouco mais leve e um riso baixo escapou de seus lábios: — Será que dessa vez ela arrumou uma noiva para um dos meus irmãos? — Brincou sem medo de ser repreendida. Não era habitual serem chamados dessa forma até o Jardim de Cima, tinha noção de que eram tempos diferentes, muitas coisas aconteciam por Westeros. Se pudesse negaria, a bem da verdade, desde que Olyvar partiu para a Capital, as idas ao Jardim de Cima já não eram mais tão especiais. Tinha um pouco de ressentimento por ele ter partido, sem ao menos dizer um adeus e pior ainda, contra a vontade de todos.

Era uma jovem sagaz, que se interessava por vários assuntos, não uma garota frívola que se preocupava com os pontos em um bordado. Já havia escutado conversas de seu pai sobre a família real, uma possível revolta dos dorneses contra o Trono de Ferro. Também era sabido pela jovem que sua família, bem como os Tyrell não tinham nenhum apresso pelos Blackfyre, ainda que, uma Tyrell tenha sido a rainha antecessora. As possibilidades eram imensas e poderia passar a tarde desperdiçando seu tempo tentando adivinhar. Todavia, a ida da matriarca Tyrell para capital era algo de se espantar, seu coração tremeu, uma ponta de esperança nasceu. Quem sabe não veria seu primo novamente e com alguma sorte, ele não traria uma esposa, o que seria uma grande decepção para ela. Mas estes eram pensamentos que ficariam em sua mente ou pelo menos deveriam: — Olyvar. Ele retornar para a Campina? — Perguntou pelo primo. Era a primeira vez que ela tocava no nome dele desde sua partida para Porto Real e por mais que tentasse disfarçar, havia uma pontinha de ressentimento em suas palavras.



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Re: Ala Marfim.

Mensagem por Avalon Hightower em Seg Jun 19, 2017 1:20 am

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- Acredito que sim, querida. Olyvar estava no território dos dragões contra a vontade de nosso primo. Joseph não é o tipo de Lord que gosta de ser contrariado, ainda menos por seus próprios filhos. Certamente titia está indo buscá-lo para evitar que Joseph o deserde. - Concordei, observando o rosto de Alerie sem entregar nada. Sabia a forma ímpar como ela tentava disfarçar o apreço por seu primo, sempre envolvida em sua postura firme e madura desde a morte de Tyene. Contudo, a conhecia bem demais para não notar o modo como seus olhos brilhariam ao ouvir tal notícia. - De todo modo, muito embora seu primeiro instinto seja recusar o convite, coisa que não será possível, teremos de viajar dentro em breve. Por desejo de titia, mas também por obrigação como os Hightower de Torralta. O Dia do Nome de Lady Desmera aproxima-se. Um torneio que promete ultrapassar o do ano anterior será oferecido. Como família do Lord e principais vassalos da Campina, é nosso dever estarmos lá, para as festividades. Sei que gostará da oportunidade de rever Joanna, e Maelle. Não a conheço bem, mas o boato é que mesmo a Lady Tyrell de Águas Claras levou sua comitiva ao castelo. E acompanha nossa tia até Porto Real. Com que propósito, julgo incerto. Talvez ela planeje casá-la com Olyvar, para manter a fortaleza no nome da família. - Supus, perspicaz. Queria ver a reação de Alerie e brincar com suas emoções. Afinal, a Pérola da Torre sempre fora resoluta sobre casamento, cada vez que eu havia sugerido. Talvez seu incômodo a despertasse, para além do que apenas minha vontade poderia.

      Enquanto acomodava-me próximo à minha filha, refleti sobre meus meninos. Lembrei também de meu mais velho, perdido para Além do Mar Estreito. Um sentimento de tristeza e abandono me invadiu, e recusei-me a pensar em tais coisas. Meu trauma e minha dor não podiam impedir a felicidade daqueles que eu amava. Minha filha merecia um lar para chamar de seu, e merecia filhos que pudessem amá-la como ela amava a mim. Era injusto, muito embora ela não percebesse, mantê-la só para mim. Seus irmãos cresceriam e teriam as próprias esposas. Nenhum deles, muito embora a amassem, seria capaz de compreender o sacrifício que era para uma moça abrir mão de sua juventude. As canções tocadas em Jardim de Cima sobre sua beleza, um dia calariam. Meu dever era protegê-la e prepará-la para este dia. Por hora, contudo, fiquei satisfeito ao ver entrarem servos com bandejas de frutas e queijos. Eu estava um tanto faminto após o treinamento, e julgava que poderia devorar meio javali, mesmo que o horário para o almoço ainda estivesse distante. Sorrindo, peguei uma taça de cristal e curvei para que uma das criadas a enchesse de hidromel das Ilhas de Ferro. O povo rústico sabia produzir uma boa bebida. O que apenas me lembrava de agradecer ao Senhor de Pyke num momento apropriado, pelo presente. Sentia falta do sal no ar, e no tempo que passara nos mares das Cidades Livres ao lado de Dickon Greyjoy, antes que qualquer um dos dois fosse Lord de coisa alguma. Sentia falta do mar como sentia falta da Ilha dos Ursos, dos Jardins de Água em Dorne, de Vila Gaivota e do Ninho, e mesmo de Porto Real, com seu mau cheiro e vielas intrincadas. Recordava com saudade das ameias de Correrio, e do quanto parecido o Tridente era com um grande espelho, quando o sol se punha sob o seu horizonte. Aninhava com carinho as lembranças de seu treinamento em Jardim de Cima e no Monte Chifre, últimas paradas antes de retornar ao seu lar, um homem feito. Alerie nunca conhecera tal liberdade. Ela não manifestara pendor para lutas, mas duvidava de que sua mãe ou tia Desmera a permitissem seguir adiante, caso o fizesse. O mundo era sombrio e arriscado para uma donzela bondosa e honrada. A lealdade de Alerie poderia ser sua ruína, se não houvesse tanto da Senhora dos Espinhos, em suas veias.

- Agradeço aos deuses por você ser tão sábia quanto bela, meu doce. - Deixei escapar, refletindo em meio aos meus devaneios. Achava que minha filha podia preocupar-se, imaginando meu estado de confusão. Mas era cada vez mais comum que me perdesse em memórias, já que não conseguia construir novas desde a morte de Tyene. Mais especialmente, desde a morte de meu verdadeiro amor. A partida e a estranha morte de Garth ainda doíam em meu peito, como uma ferida nunca completamente cicatrizada. Duvidava que sua filha conhecesse os desejos secretos de seu coração,  mas suspeitava que ela o odiaria como Tyene o odiara, se soubesse do verdadeiro motivo da depressão de sua mãe. Traída em sua própria casa, por um Meistre que havia jurado celibato e lealdade à Cidadela. - Desculpe minha distração. - Pedi, sorrindo torto. - Os treinos matinais foram cansativos, mas o importante é que nos preparemos. Dentro de uma quinzena quero estar às portas de Jardim de Cima recepcionando tia Desmera, como ela solicitou. Não é bom desobedecer à Senhora dos Espinhos, mesmo agora que sua posição foi passada ao filho. Nosso primo pode nos governar, mas aquela mulher é capaz de ordenhar leite de uma pedra.

     Bem humorado, disfarcei a tempestade em minha mente. Não demorei contudo, a focar minha atenção na larga janela às costas de minha filha, observando o céu nublado e tempestuoso que se agitava. As águas se revolviam como a tempestade em meu coração. Um filho, dois amores, duas irmãs... Parecia que meu destino era viver só em meu isolamento, até que meus filhos fossem homens o bastante para continuarem sem mim. Talvez um dia eu pudesse finalmente viajar para Leste, e conhecer as maravilhas do Império Dourado, como desejara na juventude. Papai morrera antes que eu tivesse a chance, forçando-me aos meus deveres. Melancólico, lembrei das cartas que Garlan entregara em minhas mãos. Dezenas de textos seus, lacrados com cera e misturados à documentos ainda mais antigos, que segundo ele, nunca poderiam ser encontrados a menos que se desejasse abalar os Sete Reinos em suas fundações. Eu nunca soubera o que meu amado quisera dizer com aquilo, e mesmo nos momentos mais solitários, nunca lera suas cartas ou segredos. O Arquimeistre de História da Cidadela traíra seus irmãos, roubando aquelas páginas. Eu não as entregara em respeito à sua memória, mas as mantinha em segurança, guardadas no escritório secreto de minha biblioteca. Nem mesmo Alerie conhecia o cômodo, um segredo passado de pai para filho ao assumir o posto de Lord do Farol. Assustado, notei que meus olhos haviam se preenchido de lágrimas, e não era a primeira vez naquela lua. Disfarçando meu estado, bebi todo o hidromel de um único gole, apreciando o ardor adocicado e o gosto pungente em meus lábios. Sacudi meus cabelos loiros, bufando ao senti-los no rosto. Talvez fosse hora de cortá-los.


     
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