O Templo do Senhor da Luz

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O Templo do Senhor da Luz

Mensagem por Balerion em Qua Abr 05, 2017 2:04 pm



Templo

Em Volantis, o templo de R'hllor é uma enormidade de pilares, degraus, contrafortes, pontes e cúpulas que fluem umas contras as outras, como se tivessem sido esculpidas a partir de uma rocha colossal. Uma centena de tons de vermelho, amarelo, dourado e laranja se encontram e se fundem nas paredes do templo. Suas torres esbeltas se retorcem para o alto, como chamas congeladas que tentam alcançar o céu. Possui cerca de três vezes o tamanho do Grande Septo de Baelor em Porto Real. Antes de sua construção, o local era uma grande praça. O templo é protegido por um exército privado, a Mão Ardente.

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Re: O Templo do Senhor da Luz

Mensagem por Amarantha em Sab Jul 08, 2017 7:00 pm

Dezessete anos antes

... e a oração mais comum nesta fé é "O que está morto não pode morrer, mas volta a erguer-se, mais duro e mais forte" — disse Tareah, empolgada com o fim do assunto. Estava visivelmente feliz ter terminado de explicar a respeito do Deus Afogado para sua aluna, já que isso significava que faltavam apenas mais três religiões para chegar naquela da qual mais gostava: a sua própria. A pequena, porém, estava com a face voltada para a mesa de madeira escura à frente delas, com um semblante indecifrável. Quando a sacerdotisa mais velha notou, não conseguiu acreditar que estivera conversando com as paredes, e revirou os olhos. Arregaçando as mangas de sua longa túnica escarlate, ela respirou fundo para se acalmar. — Amarantha — chamou a mulher em um tom de desagrado, fazendo a menina voltar-se para ela instantaneamente. — Eu poderia estar indo à celebração noturna com todos os outros, mas estou aqui, tentando ensinar a você um pouco a respeito das religiões de nosso mundo. Diga-me se eu estiver apenas perdendo meu tempo com você, pequena, que eu a deixarei ir embora... Se é que você tem algum lugar para ir.

A menina, de apenas seis anos de idade, meneou a cabeça negativamente, sentindo-se culpada por não prestar a devida atenção em sua tutora. Tareah havia aceitado a responsabilidade de iniciar Amarantha nos estudos de R'hllor, já que havia sido ela quem trouxera a garotinha para o Templo, e aquela era sua primeira aula a respeito de religião. A pequena não viera de uma família religiosa, de modo que não sabia sequer quem era o Senhor da Luz, e coubera à sacerdotisa adulta lhe explicar tudo a respeito. A mais velha havia decidido, porém, que iria primeiramente ensinar à menina um pouco sobre cada uma das religiões mais comuns em todo o mundo, de modo que a talvez futura sacerdotisa pudesse ter a chance de escolher a fé que seguiria. Caso ela optasse por outra crença, não poderia mais aprender no Templo de Volantis, obviamente.

Desculpe-me, senhora — pediu Amarantha, de cabeça baixa, sentindo-se extremamente envergonhada por ser uma aluna tão ruim. Estivera pensando em seus pais; estava com muita saudade dos mesmos, e faria qualquer coisa para vê-los de novo. Levantou os olhos claros para as órbitas castanhas de Tareah, que contrastavam com sua pele extremamente pálida e combinavam com seu cabelo quase negro. As marcas de expressão que a mulher tinha em seu rosto a faziam parecer bastante rigorosa, mas, mesmo conhecendo-a há somente duas semanas, a menina sabia que a outra era bastante gentil quando queria. A sacerdotisa a fitava com uma expressão rígida mas, paradoxalmente, tinha um olhar gentil, como se tivesse de fazer esforço para parecer brava com a mais nova. — Prometo que não irei desviar os pensamentos novamente; vou ser mais esforçada — afirmou a pequena. — Eu juro.

A mais velha esperou alguns instantes e então assentiu, levantando-se em seguida. Caminhou pelo cômodo em que se encontravam — uma espécie de biblioteca de tamanho mediano, com algumas estantes e prateleiras abarrotadas de livros — e fechou as janelas, pois delas começava a entrar o ar gelado do início da noite, que logo deixaria Amarantha com frio. Os archotes das paredes já ardiam, de modo que não faltaria iluminação para que lessem na mesa do lugar. Sentou-se novamente ao lado da menina de cabelos escuros e pele bronzeada, decidida a ensinar-lhe bastante naquela noite, mesmo que precisassem ficar ali até que o sol nascesse.

Continuemos então. Espero que preste atenção dessa vez — acrescentou Tareah, com voz firme, e fechou o livro com capa azul-escura que estivera lendo antes. Ensinara-lhe o suficiente a respeito do deus dos Homens de Ferro, acreditava, de modo que quis iniciar o estudo de outra religião. Pegou, então, um livro de capa cinza bastante empoeirado no topo da pilha, que parecia já estar ali há anos sem ser aberto. — Esta crença também é dos westerosi, e é ainda mais difundida do que a anterior. Com exceção de poucos reinos, quase todo o continente a segue. É a Fé dos Sete, às vezes chamada por eles somente de Fé.

O que significa o "sete"? "Sete reinos"? — indagou a pequena, com as sobrancelhas franzidas, observando a outra assoprar o pó do objeto em suas mãos. Não ouvira falar da religião, mas seu pai falava bastante do continente de Westeros, e ela sabia o nome de cada um dos reinos que haviam nele. Até aquele momento, só havia estudado a fé do Deus Afogado, e esta não a atraíra nem um pouco; a menina tinha um medo muito grande do mar e de tudo que havia nele.

Não, mas isto até que faria bastante sentido — brincou a sacerdotisa, com um sorriso no rosto. — Sete são os deuses, ou melhor, as faces do deus desta fé: Pai, Mãe, Guerreiro, Donzela, Ferreiro, Velha e Estranho. Eles podem orar para um a cada dia da semana, sempre para o mesmo ou escolher aquele que mais poderá ajudá-lo no momento, mas, no fim, irão rezar sempre para a mesma divindade.

Amarantha refletiu por um instante, pensando no sentido que havia naquilo. Um só deus era sete? Por que não definiam um só rosto para ele, então? Qual era a necessidade de criarem vários aspectos para um mesmo ser? Aquelas perguntas martelaram sua cabeça, deixando-a confusa.

O que representa cada uma dessas faces? — perguntou, fitando sua tutora com uma sobrancelha arqueada. Era difícil para a menina conseguir imaginar que um só deus poderia ser sete ao mesmo tempo; já ouvira sua mãe lhe dizer algumas vezes que cada pessoa é única. Aquilo contrariava tudo o que aprendera durante seus seis anos de vida.

Tareah voltou-se para o livro à sua frente e virou uma página frágil e amarelada, procurando, em seguida, o parágrafo que falava a respeito das faces. Aquela fé não era seu campo de estudo, de modo que não teria coragem de respondê-la sem consultar o texto primeiramente. Quando encontrou, pigarreou e pôs-se a ler.

"O Pai é o julgamento, e é cultuado por quem procura justiça. Costuma ser retratado como um homem barbado com uma balança em mãos. A Mãe representa a piedade e a maternidade, e costuma orar para ela quem busca fertilidade ou compaixão. Sua imagem é uma mulher sorrindo amorosamente, que traz conforto e misericórdia, uma verdadeira figura maternal. O Guerreiro carrega uma espada, e representa força em combate. Costumam cultuá-lo em busca de coragem e vitória" — a mulher fez, então, uma pausa, olhando de soslaio para Amarantha, para ter certeza de que a acompanhava. Ficou satisfeita ao ver a menina olhando-a com interesse. — "A Donzela representa inocência e castidade — prosseguiu —, e é cultuada por quem busca proteger a virtude das donzelas. O Ferreiro representa os dons e o trabalho, e carrega um martelo. Aqueles que o cultuam querem finalizar trabalhos, e buscam por força. A Velha carrega uma lanterna e é cultuada por quem busca orientação, já que representa sabedoria. Por último, vem o Estranho, que representa a morte e o desconhecido. Sua imagem é disforme, meio humano e meio animal, e seu rosto costuma estar coberto por uma capa ou outro pano. Os únicos que costumam cultuá-lo são os renegados; com exceção destes, quase ninguém procura os favores dele."

A pequena se entristeceu ao ouvir a respeito do Estranho. Se eram todos eles o mesmo deus, por que não rezariam para aquela face dele? "Este aspecto do deus deles deve ser triste e solitário", pensou, com sua mente ingênua de criança. "Se eu acreditasse nesta fé, iria rezar só para ele." Olhou então para a sacerdotisa, de olhos semicerrados.

Estamos no Templo de R'hllor — começou Amarantha, visivelmente concentrada no assunto e fazendo um esforço perceptível para entender tudo a respeito —, isto significa que este deus de sete faces também tem um lugar para ele morar e ser cultuado?

Sim, ele tem — respondeu Tareah, feliz ao ver que a aluna sabia fazer as perguntas certas. Passou os olhos pela página do livro, buscando entre as letras pequenas algo que lhe fornecesse uma resposta mais completa para a menina. — Seus templos são chamados de septos. Cada um destes possui sete faces, e um altar para cada aspecto do deus, à frente dos quais os fiéis costumam acender velas quando oram. As cerimônias são conduzidas pelo membro masculino mais alto do clero local, e nelas são cantados hinos aos Sete. Existe, aliás, a chamada "A Canção dos Sete", que é uma música que cultua a todas as faces, com exceção do Estranho.

Ali estava, novamente, a exclusão do aspecto disforme do deus deles. A pequena não gostava daquilo; lhe parecia bastante errado esquecer propositalmente de alguém deste modo, ainda mais quando era uma face de uma divindade que acreditavam. Bocejando, esfregou os olhos, cansada e sonolenta.

Não gostei muito desta religião — murmurou Amarantha, o que deixou a mais velha secretamente contente. A menina olhou para sua tutora, bastante determinada a demonstrar tudo o que havia de errado naquela fé. — É muito ruim não gostarem do Estranho só porque ele é diferente. Nem todos são pais, mães, guerreiros, donzelas, trabalhadores ou velhos, mas todos nós somos um pouco estranhos, não somos? Pelo menos em algum aspecto.

Um pouco espantada com tamanha sabedoria em uma criança, Tareah assentiu. Fitou a garotinha de olhos semicerrados, e sentiu-se feliz por saber que fizera a coisa certa ao trazer a pequena consigo, quando a encontrou em Lys. Seria um grande desperdício deixar uma menina assim morrer sem uma segunda chance.

Sim Amarantha, você tem razão — concordou a mulher, permitindo-se um pequeno sorriso, que fez a mais nova sorrir também, parecendo orgulhosa de si mesma. Observou-a bocejar novamente, e fechou o livro cinzento e envelhecido pelo tempo em que não fora tocado. — É por isto que não devemos seguir esta fé. Falaremos sobre as outras em um outro momento, certo? Pude notar que está com sono, é hora de você ir dormir. Vá para a cama, tenha uma boa noite.

A menina assentiu, aliviada, já que não sabia se conseguiria ficar ainda acordada por muito tempo. Costumava dormir por volta de duas horas após o sol se pôr, e já passava bastante daquele horário. Pegou seus cadernos que estavam sobre a mesa escura e levantou-se, passando a mão em sua túnica de tom bege para desamassá-la. Não tinha ainda uma túnica vermelha, visto que não havia iniciado os estudos como sacerdotisa.

Boa noite, senhora, e obrigada — agradeceu a pequena, curvando-se para a mulher. Retirou-se, então, do cômodo, saindo pela porta escura de carvalho que se abria para um corredor iluminado por tochas. A pequena caminhou, observando o chão cinzento e as paredes com seus tons de vermelho, amarelo e laranja, até encontrar a escadaria que a levaria ao seu quarto. Desceu as escadas cuidadosamente, e, com o fim delas, andou mais alguns passos até que chegou aos seus aposentos, com sua porta de madeira negra.

Abriu-a e entrou no cômodo, que continha uma cama escura, um baú vermelho para guardar seus pertences e uma escrivaninha com vários livros para seu estudo. As paredes eram de tijolos alaranjados, e havia uma vela queimando sobre a mesa de cabeceira. A menina pôs os cadernos junto aos seus livros e trocou suas vestes, já que seria preferível um vestido leve para dormir do que a túnica pesada que vestia. Deitou, então, na sua cama, cobrindo-se com a manta de algodão que a aquecia todas as noites. Assoprou a vela, fazendo com que a chama se apagasse e o quarto se tornasse tão escuro e difuso quanto a imagem que ela tinha de R'hllor até o momento.
treino 02 - religião

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Re: O Templo do Senhor da Luz

Mensagem por Amarantha em Qua Jul 19, 2017 5:52 pm

Dezessete anos antes

"Deuses antigos". Aquele era o título que podia ser lido na página que estava aberta do livro que Amarantha segurava em suas mãos. Naquela noite, Tareah pedira que lesse sozinha a respeito de alguma fé, pois ela tinha de comparecer a alguma espécie de reunião dos sacerdotes vermelhos, de modo que ali estava a menina, sozinha na biblioteca do templo. Ainda não tinham terminado de estudar todas as religiões: aquela era a terceira a respeito da qual leria, sendo que tinham estudado somente sobre a Fé Afogada e a Fé dos Sete. Faziam aquilo para que a garota soubesse um pouco de cada uma delas, mas, principalmente, porque esperavam que a pequena encontrasse os defeitos destas crenças "falsas" e as odiasse tanto quanto os outros sacerdotes algum dia. De tal modo, sua mentora focava o estudo nos erros presentes nas religiões, como fizera ao enfatizar que o Estranho era negligenciado pelos que acreditam nos Sete. Desta vez, Amarantha teria de encontrar as falhas por conta própria.

A biblioteca alaranjada estava às escuras, iluminada apenas pela vela que a menina trouxera consigo e pousara na mesa de carvalho na qual estudava; as janelas estavam fechadas, de modo que o frio noturno não entrava no lugar. Suas várias estantes, que possuíam pelo menos três vezes a altura da garotinha de seis anos, eram repletas de livros empoeirados e envelhecidos pelo tempo; apenas uma delas demonstrava ter um acervo comumente usado, sem poeira alguma, que era formado pelos manuscritos sobre venenos. Todo o resto do conhecimento contido naquele cômodo era inutilizado, o que fazia a pequena pensar que, caso viesse a se tornar sacerdotisa, gostaria de ler todos aqueles livros, para que soubesse do que cada um se tratava. Amarantha esfregou os olhos e então voltou a concentrar-se na leitura que iniciara há poucos minutos: aprendera a ler havia um ano, com a ajuda de seu pai. Não lia rapidamente como Tareah, mas já era bom o bastante para ela.

"Os Deuses Antigos são incontáveis espíritos da natureza que não possuem nome" — leu em voz alta, lembrando-se que sua mãe dizia que, assim, era mais fácil para assimilar o que se estudava. — "e são adorados principalmente no Norte de Westeros, mas também há adeptos da religião no sul do continente. Eles eram primeiramente cultuados pelas crianças da floresta, porém os Primeiros Homens se afastaram das crenças que possuíam em favor de tais espíritos. São apelidados de 'antigos' porque, quando os Ândalos conquistaram o sul de Westeros, trouxeram uma nova religião, que era a Fé dos Sete." — Naquele momento, ela fez uma pausa, indagando a si mesma se era correto mudar o nome da sua crença por causa de outra. Achava que não.

Um ar gélido entrou de algum modo repentino na biblioteca, e a chama bruxuleante da vela se extinguiu. A menina olhou ao seu redor no escuro, perguntando-se de onde viera a rajada de vento; conseguiu, então, avistar uma das janelas aberta, do outro lado do cômodo. Perguntando a si mesma se não a notara anteriormente ou se ela se abrira de algum modo enquanto estava lendo, a pequena Amarantha fechou-a, interrompendo o frio; do lado de fora do templo, viu que o céu estava nublado, o que fazia a escuridão parecer maior. "A noite é escura e cheia de terrores", lembrou-se, tendo ouvido aquilo de vários sacerdotes. Com passos apressados, voltou à mesa de estudo e pegou a vela e seu apoio, e dirigiu-se às portas da biblioteca; chegando ao corredor de tons vermelhos, acendeu a mesma em um archote, baixo o suficiente para que alcançasse — possuía apenas seis anos, mas era bastante alta para a sua idade.

Voltando a entrar pelas portas negras e fechando-as, ela sentou-se novamente na cadeira acolchoada feita da mesma madeira da mesa escura. Colocou a vela novamente apoiada nesta última, de modo que iluminasse aquilo que precisava ler. O livro de capa verde-escura e páginas amareladas ainda estava aberto onde deixara, e, assim, não precisou procurar o que estava lendo; com um dedo, buscou o parágrafo em que parara, e, quando o encontrou, retomou a leitura, ainda com mais avidez do que antes.

"Esta fé não possui organização, clero, movimentos evangélicos e textos sagrados, somente tradições, que são passadas de geração a geração por seus seguidores." — leu, parando para imaginar o que aconteceria se os pais esquecessem de passar algo da religião para os filhos. Os costumes, com certeza, seriam perdidos com muita facilidade. — "Coisas como o incesto e o fratricídio" — prosseguiu — "são abominadas por aqueles desta fé, pois estes consideram uma ofensa aos deuses." — A menina pausou a leitura por um momento, tentando compreender o que era "incesto" e o que era "fratricídio": as duas palavras eram estranhas para Amarantha, que nunca as ouvira anteriormente. Após alguns minutos pensando, desistiu e voltou a ler. — "Existem bosques sagrados nos quais crescem árvores que consideram 'divinas', conhecidas como árvores-coração. Estas possuem protuberâncias em seu tronco que aparentam ser um rosto, e, pelos 'olhos' da árvore, escorre algo que muitos acreditam ser seu sangue. As orações, os juramentos e os casamentos são, muitas vezes, realizados no bosque sagrado."

A pequena virou a página, procurando por mais texto, mas notou que o livro não tinha mais nada sobre a Fé dos Deuses Antigos. Parou, então, para pensar por um instante; se existiam mesmo árvores que choravam "sangue" e tinham rostos, por que duvidaria de tal crença? Parecia bastante "correto" acreditar naquilo. Aquele pensamento a deixou com medo, pois sabia que não poderia ser ensinada no Templo de R'hllor se não acreditasse no Senhor da Luz: ele não concederia nem sequer visões a alguém que não lhe era fiel. Deste modo, teria que ir embora, e ela não tinha para onde ir.

Levantou-se, então, e caminhou até as estantes, que ficavam a menos de dez passos de distância. Procurou pela estante mais empoeirada, acreditando que o que precisava provavelmente estaria nela; passou então os olhos por cada um dos livros, e, quando avistou após alguns minutos em meio aos outros um com o título "Árvores-coração", retirou-o da prateleira. Naquele momento, Amarantha parou para imaginar por qual motivo haviam coisas sobre outras religiões ali, mas, notando que haviam centenas ou mesmo milhares de livros na biblioteca, achou que encontraria algo sobre qualquer coisa que procurasse.

Assoprando o pó que cobria a capa de tom rosa-escuro, abriu o livro nas primeiras páginas. Tinha, provavelmente, mais de uma centena de folhas, mas ela só queria encontrar algo que a fizesse desacreditar por completo daquela fé e de suas árvores estranhas. Encontrou, enquanto folheava o objeto, o que procurava. "As árvores-coração não são nada mais do que simples represeiros de casca e madeira brancas, que possuem folhas de cinco pontas e uma seiva vermelha no seu interior. São caducifólias, de modo que perdem estas mesmas folhas nas estações mais frias. A maior parte dos represeiros possuem rostos esculpidos nos seus troncos; estes eram feitos pelos Filhos da Floresta há muito tempo, mas atualmente os escultores são selvagens e outros descendentes dos Primeiros Homens. Há casos em que a seiva pode se acumular, o que faz a árvore ter olhos vermelhos; algumas podem mesmo gotejar tal seiva, como se chorassem."

A menina se alegrou ao término daquela página. O outro livro a fizera crer que os represeiros tinham faces naturalmente e realmente choravam sangue, o que a deixara bastante admirada, mas, pelo que acabara de ler, não era exatamente assim. Eram pessoas que criavam os rostos, e o "sangue" nada mais era do que uma espécie de tinta própria da árvore; talvez fosse, afinal, uma crença tão falsa quanto a Fé dos Sete. Os fiéis tinham tão poucos meios de chegar aos seus "deuses" que precisavam criar imagens eles mesmos, pelo visto.

Tareah ficaria orgulhosa de sua aluna.
treino 03 - religião

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Re: O Templo do Senhor da Luz

Mensagem por Amarantha em Sab Jul 22, 2017 1:18 am

Treze anos antes

Amarantha, pode trazer um pouco de água?

Sim, senhora — respondeu a menina, obediente, saindo dos aposentos de Lujwan pelas portas de carvalho escuro. Ela estava ajudando Tareah, sua tutora no templo, a cuidar do sacerdote mais velho, que estava adoecido e com muitas dores; segundo os boatos que ouvira, o mesmo já tinha completado mais de duzentos dias de seu nome. A garota sabia que aquilo não era verdade: nenhuma pessoa poderia viver tanto assim, nem mesmo tendo uma vida saudável. A pequena nunca tinha tido muito contato com Lujwan, mas já o vira algumas vezes nas celebrações noturnas ao Senhor da Luz; de qualquer modo, havia ouvido alguém murmurar que ele "não passaria daquele dia, pois estava muito mal".

Caminhando apressadamente pelos corredores iluminados por archotes, com suas paredes de vários tons de vermelho e alaranjado, Amarantha chegou ao seu destino: a cozinha. Era um ambiente grande, fazendo jus ao resto do templo, e feito de tijolos de tom vermelho-escuro; possuía vários fogões a lenha, mesas e armários de alimentos. A menina havia percebido que havia, ali, quase todo o tipo de comida que pudesse imaginar. Apesar disto, era muito raro que ela visse algum sacerdote mais velho comer ali, junto aos aprendizes: parecia que, após certa idade, todos eles encontravam um novo local para fazerem suas refeições — ou ao menos era o que ela imaginava.

A garota pegou uma vasilha amarela e encheu-a com a água da pia, como Tareah lhe pedira. Andou com passos firmes e rápidos de volta ao cômodo em que estivera anteriormente, tomando cuidado para não derramar nada no chão enquanto subia as escadas, ou teria que refazer todo o seu caminho; ao chegar nos aposentos, empurrou a porta dupla com um dos cotovelos e adentrou o local. Como antes, Lujwan estava deitado na cama de madeira escura, com os olhos fechados; sua tutora, no entanto, estava de pé em frente à escrivaninha do quarto, aparentemente concentrada em preparar algo.

Senhora, trouxe o que me pediu — disse Amarantha em voz baixa, caminhando em passos lentos até onde a mais velha estava e fitando-a atentamente. Tareah trajava a túnica carmesim comum a todos os sacerdotes, e estava com seu cabelo negro preso em um coque; a menina, apesar de vestir uma roupa idêntica em tamanho menor, estava com suas madeixas castanho-escuras soltas. A pequena pôde ver, quando se aproximou, que a sacerdotisa estava com um semblante preocupado; esta, porém, quando viu sua aluna, suavizou sua expressão instantaneamente, como se não quisesse alarmá-la. — O que está fazendo, senhora? — perguntou a garota, depositando a vasilha sobre a madeira e notando que já haviam outras duas lá: uma, de cor branca, possuía algumas plantas em seu interior, e a outra, vermelha, estava vazia, exceto por um pouco de líquido esverdeado no fundo. Havia uma faca nas mãos de sua tutora, que era pequena, mas parecia bastante afiada.

Estou preparando um veneno — respondeu Tareah, concentrada. Ao notar que a mais nova lhe fitava, aparentemente muito assustada com a resposta, conseguiu esboçar um sorriso. — Nem todos os venenos fazem mal, Amarantha — disse-lhe de modo educativo, voltando a fitar os objetos sobre a escrivaninha. Depositou a faca sobre a mesa e pegou uma das plantas da vasilha branca na palma das mãos, mostrando-a à menina. — Você sabe me dizer o que é isto?

Uma planta, senhora — falou a garota instantaneamente, o que fez a outra franzir as sobrancelhas. — Quero dizer... É... — ela parou durante um momento para pensar, tendo a certeza de que sabia a resposta, mas não conseguindo se recordar no momento. Já vira aquela vagem anteriormente, na estufa que seu pai tivera; felizmente, demorou apenas alguns instantes para que lembrasse do nome, o que a deixou satisfeita consigo mesma. Já ouvira sacerdotes mais velhos falarem diversas vezes sobre tal veneno. — Papoula, não é? A senhora está preparando Leite de Papoula?

Sua tutora assentiu, mergulhando a planta que tinha em mãos na água que a menina trouxera. Limpou cuidadosamente o vegetal com os dedos, removendo quaisquer resíduos de sujeira que pudesse ter, e então retirou-o da vasilha. Era uma espécie de botão de flor, ainda verde e redondo; no topo, havia algo que parecia uma estrela amarelada com pelo menos dez pontas, e seu caule era longo e grosso.

Preste atenção no preparo — advertiu Tareah, após constatar com uma olhadela que Lujwan ainda estava respirando. — Você, como uma futura sacerdotisa, ainda terá de fazer muitas vezes este veneno — disse baixinho, pegando a faca e ralando a planta de modo habilidoso. Uma seiva esverdeada começou a escorrer, o que fez com que a mais velha aproximasse a vagem da vasilha vermelha, para coletar o sumo. — Simples, não concorda? — perguntou, após fazer o mesmo rapidamente com mais quatro papoulas.

É só isso? — indagou Amarantha, sem acreditar que tal coisa pudesse ser feita com tanta facilidade. A pequena acreditava que venenos possuíam um preparo extremamente dificultoso; se fossem todos daquele jeito, ela tinha certeza de que se sairia bem. — Eu imaginei que eram necessárias mais coisas para se preparar algo assim, senhora — murmurou, claramente surpresa com o que presenciara. — Achei que os ingredientes variavam entre unhas de dragão e olhos de serpentes marítimas.

A mulher de olhos castanhos fitou a menina de apenas dez dias de seu nome, de modo maternal. Era uma garota inteligente e determinada, ela acreditava; aprendia rapidamente as coisas, sem que fosse necessário repetir a explicação ou demonstração. Tareah conseguia vê-la tendo um futuro promissor como uma sacerdotisa vermelha.

Sim, Amarantha — concordou a mais velha, pegando a vasilha vermelha nas mãos e caminhando até a cama de Lujwan, com a pequena ao seu lado. — Este realmente é um veneno com um preparo fácil; até mesmo os meistres de Westeros sabem produzi-lo — disse, demonstrando claramente em sua voz o desprezo que sentia por tais pessoas. — Deve, porém, ser ministrado com cuidado, já que em demasia pode causar grande vício — falou baixinho, sentando-se na cadeira escura ao lado do leito do mais velho.

Ele abriu os olhos azuis e fitou a sacerdotisa, pois já estava esperando que ela lhe trouxesse o Leite de Papoula. A mulher encostou a vasilha em seus lábios e fez com que ele bebesse cerca de um terço do conteúdo, pousando então o pote na mesa de cabeceira. O idoso fechou os olhos e relaxou sua expressão imediatamente; havia dormido.

Espero que tenha anotado tudo o que viu, Amarantha, pois quero que produza uma dose deste veneno. Você tem até o horário em que a lua aparece no horizonte para trazê-la para mim.
treino 04 - uso de venenos

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Re: O Templo do Senhor da Luz

Mensagem por Amarantha em Seg Jul 24, 2017 1:07 am

Dezessete anos antes

Você leu todas as páginas marcadas nos livros que lhe emprestei, Amarantha?

Sim, senhora — mentiu a menina, com uma expressão de seriedade que fora bastante treinada para aquele momento. Ela se esforçara para ler tudo que Tareah indicara, mas acabara pegando no sono quando ainda faltavam dois livros. Tal acontecimento era bem previsível, já que começara a leitura pouco antes do pôr do sol e ainda não havia terminado quando este estava prestes a nascer novamente no céu. Dormira com a cabeça apoiada nos manuscritos, sentada à frente da escrivaninha de madeira escura em seu quarto, na qual estivera estudando; foram, porém, poucas horas de sono, pois sua tutora lhe acordara batendo em sua porta para que revisassem o que a pequena havia lido. Tivera de se apressar para organizar suficientemente o cômodo e a si mesma, antes de permitir a entrada da outra.

A mais velha franziu a testa enquanto fitava Amarantha, como se soubesse que ela estava escondendo a verdade; lhe parecia estranho que a menina de apenas seis anos tivesse lido o que separara nos oito livros em tão pouco tempo, e não estivesse sequer com sono. A sacerdotisa esperara encontrar a garotinha dormindo após tanto estudo quando chegou em seus aposentos, mas esta já estava de pé, além de bastante agitada.

Certo — disse Tareah, após alguns momentos de silêncio. Estava sentada na beira da cama escura, ao lado da mais nova, e trajava o mesmo de sempre: uma túnica carmesim com capuz, como todos aqueles de seu cargo. Seu cabelo negro estava solto e lhe emoldurava a face pálida e magra; as marcas de expressão em sua pele demonstravam que já não era mais tão jovem quanto alguns anos atrás. — Vamos conversar a respeito do Deus de Muitas Faces, então. O que pode me dizer sobre esta falsa divindade?

É... — Amarantha começou, mas engoliu em seco. Havia lido muito sobre ele naquela madrugada, entretanto, naquele momento, sua mente estava em branco. Ver sua tutora lhe fitar com decepção fez com que as palavras voltassem à sua boca. — Lembro-me que ele é o Deus da Morte, e possui vários aspectos, do mesmo modo que os Sete de Westeros, senhora — disse a menina, pensativa, se esforçando para não esquecer de nada. — Ele é o Leão da Noite, o Estranho, Bakkalon, a Ovelha Preta...

Cabra Preta — corrigiu Tareah, abrindo um sorriso para sua aluna. Ficou satisfeita ao ver que ela realmente havia estudado, pelo menos um pouco; a pequena estava realmente se esforçando para aprender um pouco sobre as crenças dos povos de Essos e Westeros. — Você se lembra qual é o clero do Deus de Muitas Faces? — indagou a sacerdotisa, fitando Amarantha com interesse.

A menina estreitou os olhos e franziu a testa, tentando se lembrar. Tinha certeza de que havia lido a resposta em algum dos primeiros livros; sabia que eram pessoas que viviam em Braavos, uma das Cidades Livres de Essos. Pensando um pouco, conseguiu recordar-se do que lera, mesmo que vagamente.

Os assassinos conhecidos como Homens Sem Rosto — respondeu a criança, bastante certa do que dizia. Com os dedos, brincou com a bainha de seu vestido branco, pensando que, talvez, fosse a última roupa não-vermelha que teria a chance de vestir, caso realmente viesse a estudar R'hllor. — Estes homens acreditam que os escravos da Valíria oraram por libertação ao Deus de Muitas Faces, senhora. Eles são chamados assim porque podem ter o rosto que quiserem, o que faz com que sua face real já tenha se perdido há muito tempo. Acreditam também que, através do assassinato, servem ao seu deus, que é único.

Está correta — confirmou Tareah, assentindo lentamente. — Mas os Homens Sem Rosto merecem somente seu desprezo, menina — advertiu a mais velha, fitando os olhos claros da pequena, para ter certeza de que ela lhe ouvia. — Eles cometem homicídios por dinheiro. Se você matar alguém, Amarantha, faça isto somente pelo Deus da Chama e da Sombra, e nunca por um punhado de moedas.

A garotinha fitou sua tutora de olhos arregalados, um tanto quanto surpresa pelo que ouvira. Não tinha a menor intenção de assassinar uma pessoa naquele momento, fosse por dinheiro ou por vontade de alegrar o Senhor da Luz; preferiria tentar uma boa conversa antes de qualquer outra coisa.

Lembrarei disso, senhora — murmurou baixinho, de cabeça baixa. Não sabia se conseguiria matar alguém caso fosse realmente necessário; esperava não descobrir, pelo menos não tão cedo. Não tinha certeza de que R'hllor perdoaria um assassinato, mesmo que este fosse em seu nome.

Você se recorda de alguma oração ao Deus de Muitas Faces? — perguntou Tareah à menina, olhando-a fixamente. Estava buscando a certeza de que a mais nova realmente estudara tudo o que havia lhe indicado.

Amarantha refletiu por alguns instantes, tentando lembrar. Pôs alguns fios de seu cabelo atrás da orelha com os dedos, pois estavam fazendo cócegas em sua face; haviam se soltado do coque que havia feito. Após tal pausa, a resposta à pergunta feita lhe veio à mente: estava em um dos últimos livros que lera.

Não existem orações, ou pelo menos não rezadas pelo clero, senhora — disse a pequena, decidida. Talvez haja quem tenha criado alguma oração ao Deus da Morte, mas esta não era conhecida. — Também não há nenhum tipo de meio de adoração que os Homens Sem Rosto pratiquem, exceto os homicídios. Além disso, disponibilizam água envenenada em uma cisterna, para que qualquer um possa beber e ter uma morte indolor. Em troca, guardam os cadáveres para usarem seus rostos.

Correta novamente — disse a sacerdotisa, se esforçando para esconder a satisfação que sentia. — Lembra-se do nome do templo onde o Deus da Morte é cultuado? — indagou Tareah, observando a menina. Quando esta meneou a cabeça negativamente, a sacerdotisa franziu o cenho. — Você não leu todos os livros, leu, Amarantha?

Não, senhora — respondeu a pequena, em voz baixa. Não estava com medo de um castigo, já que sabia que a outra tinha outros métodos de ensino; estava apenas um tanto quanto envergonhada por aquilo, e acreditava que poderia ter se esforçado mais para ler tudo o que a mais velha lhe instruíra. — Acabei dormindo em meio ao estudo, peço desculpas.

Está tudo bem — disse a tutora, esboçando um pequeno sorriso. — Eu deveria ter imaginado que você sentiria sono, já que nem todos estão livres disto — murmurou para si mesma, o que fez a garota franzir a testa, imaginando o que a sacerdotisa queria dizer com aquilo. Não teve, porém, muito tempo para pensar, já que a outra continuou a conversa rapidamente. — Bem, as pessoas cultuam tal divindade em um lugar conhecido como Casa do Preto e Branco. Este local possui um santuário público com estátuas de trinta deuses diferentes — afirmou a mulher. — Entre estes, estão os quatro que você citou anteriormente. Todas estas divindades remetem à morte, e por isto são consideradas aspectos do Deus de Muitas Faces.

Aquilo fez a criança franzir o cenho, bastante pensativa. A religião simplesmente se apropriara de deuses de outras crenças como se fossem seus; Amarantha achou tal coisa extremamente errada — na sua visão infantil, era exatamente como um roubo. "Uma religião criminosa", pensou consigo mesma, com desprezo.

Então ele não é um deus de verdade, é? — indagou a menina, fazendo Tareah surpreender-se. — Se ele é uma coleção de deuses, não é ninguém, no fim de tudo.

Você tem razão, Amarantha — disse-lhe a sacerdotisa, após uma pausa. Sorriu para a pequena, imaginando como esta ficaria vestindo uma túnica carmesim. — Talvez seja hora de estudar o Senhor da Luz.
treino 05 - religião

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